segunda-feira, 25 de abril de 2022

Paulino Pereira da Silva


Texto de Antonio Carlos Popinhaki


Filho de Joaquim Pereira da Silva e de Maria Faustina de Oliveira, Paulino Pereira da Silva, foi o homem que montou a primeira fábrica de refrigerantes (gasosas) em Curitibanos. Nascido em 1872, no Rio Grande do Sul, antes, era operário na cidade de Cruz Alta, depois, se estabeleceu em Curitibanos no final do século XIX. Em 3 de fevereiro de 1904, por Decreto do Vice-governador do Estado de Santa Catarina, Paulino foi nomeado para ser o 1.º Suplente do Comissário de Polícia da Comarca de Curitibanos. Isso significa que esse homem era idôneo e de boa índole. Em 28 de maio de 1912, o governo do Estado, por Ato da Chefatura de Polícia, nomeou Paulino Pereira da Silva para ser o Subdelegado de Polícia da Comarca de Curitibanos. 

Ele foi o fundador e proprietário da primeira indústria de refrigerantes existente no município. Paulino Pereira produzia regularmente as suas garrafas de gasosas (como eram chamados os refrigerantes de outrora), sem nenhum empecilho ou problema comercial, ou fiscal, até que em 1913, para comercializar as suas garrafas, foi exigido por força da lei, um selo, fornecido pela superintendência municipal de Curitibanos. Nesse ano, numa de suas idas até a sede da administração municipal, Paulino recebeu a notícia de que acabara o estoque de selos. Conforme lhe informaram, a superintendência precisaria mandar confeccionar mais selos para as garrafas de gasosas. Isso demoraria algum tempo. Paulino procurou o setor responsável no prédio da superintendência que fornecia o tal selo, para pedir orientação adicional, pois não podia parar a sua produção e a comercialização.

— Não tem mais selos no estoque. O senhor deve aguardar a chegada de uma nova remessa. — Falou o funcionário público que o atendeu.

— Posso comercializar as gasosas sem o selo, enquanto vocês não receberem mais? — Perguntou, Paulino.

— Não pode! O senhor terá que estocar as garrafas de gasosa. Se não tiver lugar para guardá-las, deverá parar a sua produção, até que os novos selos cheguem.

Paulino Pereira da Silva não podia esperar até que os selos chegassem na sede da superintendência. Começou a comercializar os refrigerantes sem os aludidos selos de fiscalização, irritando o coronel Albuquerque, que era o superintendente municipal de Curitibanos.

Albuquerque mandou lacrar a fábrica de gasosas de Paulino Pereira da Silva, para que ele não produzisse mais. Criou-se, com essa decisão, uma inimizade entre os dois. Estava em curso, naquele ano, o conflito deflagrado pela “Irmandade Cabocla”, denominada posteriormente de “Guerra do Contestado”. Daquele dia em diante, Paulino, ao se sentir prejudicado em seus negócios, aderiu à causa cabocla e se juntou à seita de fanáticos aglomerada no Taquaruçu, interior de Curitibanos. Nessa época, Paulino tinha um filho de nome Dinarte Pereira Brasil, ele tinha 2 anos. Nasceu em Curitibanos, no dia 27 de janeiro de 1911. A sua mãe se chamava Emilia Maria da Silva, entretanto, o seu sobrenome foi registrado como “Brasil”, não tendo nenhum dos dois genitores com esse sobrenome, conforme pode ser comprovado no registro de casamento de Paulino Pereira da Silva e Emilia Maria da Silva, ocorrido em 4 de outubro de 1899, em Curitibanos.

Paulino e os seus familiares, após o incidente com a fábrica de refrigerantes, buscaram refúgio com alguns parentes que moravam em Canoinhas. Ele era Capitão da Guarda Nacional, patente que obteve no ano de 1906. Abdicou dessa patente e assumiu um posto na liderança de um dos redutos da Irmandade de São Sebastião, no conflito da região do Contestado. Tornou-se homem de confiança dos líderes da Irmandade Cabocla.

Em 26 de setembro de 1914, sob o comando de Agustin Perez Saraiva, conhecido como Castelhano e duas centenas de homens, atacaram e incendiaram vários imóveis em Curitibanos. Entre esses homens estava Paulino Pereira da Silva, o desafeto do Coronel Francisco Ferreira de Albuquerque, o superintendente que acabou com o seu negócio de refrigerantes no ano anterior. Foi nesse ano que Albuquerque passou a cadeira da superintendência para Marcos Gonçalves de Farias. Na ocasião do incêndio de Curitibanos, ambos tiveram que fugir para não serem mortos pelos fanáticos.

Aparentemente, a família de Paulino continuou a morar em Canoinhas, local considerado mais seguro. A vila, naquela época, pertencia ao território de Curitibanos. Paulino Pereira da Silva, no reduto de Santa Maria, trabalhou como carneador de gado. Ao observar o desespero das pessoas por comida, principalmente por carne, relatou certa vez:

— As crianças, quando as vacas eram sangradas, ficavam com suas vasilhas em punho segurando para recolherem o sangue. Certa vez, eu vi uma horda de crianças, cada vez mais famintas despedaçarem uma rês ainda quente, com unhas e dentes. Comer carne crua já era comum, pois não tinham mais sal. Muitos saíam pelas matas procurando mel e frutas silvestres para tentarem comer algo. Ficar vários dias sem se alimentar passou a ser comum no reduto-­mor de Santa Maria.

O agravamento da crise foi mais tarde relatado por sobreviventes, que descreveram experiências traumáticas perduradas e gravadas na mente das suas gerações seguintes.

Após o término do conflito, Paulino Pereira da Silva foi preso e levado a julgamento federal devido ao seu envolvimento com os líderes fanáticos. O advogado inicial foi o Dr. Henrique Rupp Junior, que solicitava nos meios legais do Direito, “Habeas Corpus” para Paulino. Temos aqui duas ocasiões de acatamento desse recurso. Em 21 de julho de 1916, o Supremo Tribunal concedeu ordem de “Habeas Corpus” para Paulino Pereira da Silva. Em 24 de agosto de 1920, de acordo com nota no jornal “O Estado” de Florianópolis, foi impetrado outra ordem de “Habeas Corpus” para o réu e capitão da Guarda Nacional, Paulino Pereira da Silva, pela sua participação nos saques e incêndio da vila de Curitibanos de 1914. Nessa ocasião, ele estava preso em Florianópolis. O seu advogado na época era o Dr. Hollanda Cavalcanti. No Juri Federal, o advogado de defesa foi o Dr. Camillo Navarro Lins. 

De acordo com o jornal “República”, o Júri Federal instalou-se no dia 21 de dezembro de 1920. “Instalou-se às 12 horas a sessão do Tribunal do Júri Federal sobre a presidência do senhor doutor Henrique Lessa, Juiz Federal. Ocupou a Tribuna da acusação, o senhor doutor Henrique Richard, Procurador da República. O réu era o capitão Paulino Pereira da Silva, que respondeu por crimes políticos. Após a leitura do processo, foi dada a palavra ao doutor Henrique Richard, que produziu uma vibrante acusação. Ocupou a Tribuna da Defesa, o senhor Camilo Navarro Lins, que desenvolveu numa análise firme, a improcedência das acusações, tendo feito uma defesa substanciosa e brilhante. Em seguida o Conselho de Sentença recolheu-se à sala secreta, voltando muito tempo depois, com a absolvição unânime do acusado”. Como eram vários processos e acusações, Paulino permaneceu preso no Quartel de Florianópolis.

Após permanecer prisioneiro da Justiça, praticamente por 13 anos, no dia 18 de fevereiro de 1927, numa nota no jornal “O Estado”, na página 2 encontramos que “por ordem superior, foi concedida a liberdade a vários presos políticos que se encontravam no antigo Quartel do 2.º Batalhão da Força Pública de Florianópolis”, entre vários nomes, estava o de Paulino Pereira da Silva.

Após a prisão, Paulino retornou para Curitibanos. Filiou-se ao “Partido Liberal Catharinense”, onde atuou ao lado de Aristiliano Ramos, Euclides Albuquerque, Salomão Carneiro de Almeida, Graciliano Torquato de Almeida, Napoleão Sbravatt, Antonio Francisco de Campos, Ceslau Silveira de Souza e Leopoldo Arruda na política curitibanense. Fez parte do Diretório Municipal do partido. Continuou a trabalhar com o abate de animais, em 1932 encontramos o pagamento feito pela Prefeitura Municipal de Curitibanos, referente aos fornecimentos de um bois abatidos e quantidades de charques para os operários e funcionários da estrada Curitibanos/Canoinhas. 

No dia 11 de agosto de 1933, através da Resolução Estadual n.º 2.769, o Dr. Plácido Olímpio de Oliveira, Secretário de Estado nos negócios do Interior e Justiça do Estado de Santa Catarina, no exercício das suas funções de Interventor Federal Interino, nomeou o Sr. Paulino Pereira da Silva para exercer o cargo de Suplente do Juiz Distrital da sede do município de Curitibanos. Em 1934, foi novamente nomeado para o cargo de 1.º Suplente de Delegado de Polícia do município.

No dia 6 de maio de 1956, às 18 horas, faleceu com 84 anos de Infarto do Miocárdio, em sua residência, conforme consta no registro de óbito do Cartório de Registro Civil de Curitibanos.



Referências para o texto:



BRASIL, Dinarte Pereira. Algo sobre Curitibanos, Blumenau em Cadernos. Tomo XII — Fevereiro de 1971, n.º 2, p. 25


Casamento de Paulino Pereira da Silva e Emilia Maria da Silva. Portal FamilySearch. On line. disponível em: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-X369-YR9?i=180&wc=MXYL-KP6%3A337701401%2C337701402%2C338197401&cc=2016197 e ainda: "Brasil, Santa Catarina, Registro Civil, 1850-1999," database with images, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-X369-YR9?cc=2016197&wc=MXYL-KP6%3A337701401%2C337701402%2C338197401 : 22 May 2014), Curitibanos > Curitibanos > Matrimônios 1890, Maio-1904, Fev > image 181 of 239; cartórios no estado de Santa Catarina (city registration offices), Santa Catarina.


Curitibanos — Balancete da Receita e Despesa do município de Curitibanos, relativo ao mês de janeiro de 1932. Publicado na página 5 do Jornal A República de Florianópolis. Ed. de 24 de fevereiro de 1932.


Curitibanos — Balancete da Receita e Despesa do município de Curitibanos, relativo ao mês de abril de 1932. Publicado na página 4 do Jornal A República de Florianópolis. Ed. de 21 de maio de 1932.


Curitibanos — Escritos biográficos. Acervo do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza.


Echos do Incêndio de Curitybanos. Jornal “O Estado”. Ano II, ed. n.º 362, p. 2 — Florianópolis, 21 de julho de 1916.


Habeas Corpus. Jornal “O Estado”. Ano II, ed. n.º 237, p. 2 — Florianópolis, 20 de fevereiro de 1916.


Habeas Corpus. Jornal “O Estado”. Ano VI, ed. n.º 1584, p. 1 — Florianópolis, 24 de agosto de 1920.


Jury Federal. Jornal “República”. Anno XVI, Ed. n.º 626, p. 2 — Florianópolis, 13 de novembro de 1920.


Jury Federal. Jornal “República”. Anno XVI, Ed. n.º 658, p. 2 — Florianópolis, 22 de dezembro de 1920.


Mais 4 prisioneiros. Jornal “O Estado”. Ano XII, ed. n.º 3781, p.5 — Florianópolis, 11 de janeiro de 1927.


Parte Oficial. Governo do Estado. Actos do Poder Executivo. Jornal “O Dia”. Ano 4, ed. n.º 924, p. 1 — Florianópolis, 13 de fevereiro de 1904.


Parte Oficial. Governo do Estado. Chefatura de Polícia. Jornal “O Dia”. Ano XII, ed. n.º 6032, p. 2 — Florianópolis, 31 de maio de 1912.


Partido Liberal Catharinense. Jornal “A República”. Anno I, Ed. n.º 248, p. 1 — Florianópolis, 18 de agosto de 1931.


POPINHAKI, Antonio Carlos. A guerra Santa de São Sebastião na região do Contestado – (1912-1916) - Texto de Antonio Carlos Popinhaki. Curitibanos/SC. 171 p.


POPINHAKI, Antonio Carlos. Dinarte Pereira Brasil. Blog Curitibanenses. On-line: disponível em: https://curitibanenses.blogspot.com/2021/11/dinarte-pereira-brasil.html


POPINHAKI, Antonio Carlos. Francisco Ferreira de Albuquerque. Blog Curitibanenses. On-line: disponível em: https://curitibanenses.blogspot.com/2018/03/francisco-ferreira-de-albuquerque.html


Registro de óbito. Folha 41, n.º 685, registro no Livro Talão n.º 4, página 107, do Cartório de Registro Civil de Curitibanos.


Registro do Óbito de Paulino Pereira da Silva. Portal FamilySearch. On-line: disponível em: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-62Y9-53M?i=40&wc=MXYG-128%3A337701401%2C337701402%2C338783801&cc=2016197 e ainda em: "Brasil, Santa Catarina, Registro Civil, 1850-1999," database with images, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-62Y9-53M?cc=2016197&wc=MXYG-128%3A337701401%2C337701402%2C338783801 : 22 May 2014), Curitibanos > Curitibanos > Óbitos 1954, Jan-1965, Abr > image 41 of 305; cartórios no estado de Santa Catarina (city registration offices), Santa Catarina.


SANTA CATARINA — Resolução n.º 2.769, nomeia Suplente do Juiz Distrital da séde do município de Curitibanos.

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