Texto de Antonio Carlos Popinhaki
A trajetória de vida de Walter Schmidt, personagem enigmático que viveu no passado na região de Curitibanos, está envolta em mistérios e lendas. Figura emblemática, dotado de múltiplos talentos, ele se destacou na sociedade local durante as duas primeiras décadas do século XX. No entanto, não há registros precisos sobre sua verdadeira origem ou data de nascimento.
As informações sobre sua vida na região de Curitibanos são escassas e fragmentadas, encontradas em artigos de jornais e no livro da escritora curitibanense Zélia de Andrade Lemos. Uma das primeiras referências a ele surge em uma edição do jornal "O Estado", de 18 de maio de 1915. Na primeira página, há registros de seu envolvimento no auxílio ao exército brasileiro durante o conflito conhecido como Guerra do Contestado, também chamado de Guerra Santa de São Sebastião.
A Walter Schmidt foi atribuída a profissão de agrimensor e engenheiro, embora, posteriormente, se tenha descoberto que seus talentos eram diversos e iam além dessas funções. O jornal traz um resumo de um pronunciamento feito pelo General Fernando Setembrino de Carvalho, comandante do exército brasileiro e responsável pelo fim dos conflitos na região do Contestado. Esse pronunciamento, realizado em 9 de maio de 1915 no quartel-general de Curitiba/PR, continha críticas severas à conduta do próprio exército, mencionando atos considerados imperdoáveis durante a campanha militar.
Quanto ao papel de Walter Schmidt no conflito, há indícios de que tenha sido recrutado, voluntariamente ou não, para auxiliar as forças militares com seus conhecimentos técnicos. Seu trabalho estaria relacionado ao estudo dos terrenos e à identificação de áreas de difícil acesso onde os redutos e acampamentos dos caboclos fanáticos estavam situados. Na época, ele residia em uma localidade chamada Tamanduá, situada entre as vilas de Curitibanos e Canoinhas.
A complexidade da figura de Walter Schmidt, aliada à escassez de registros sobre sua vida, contribui para o caráter lendário que envolve sua trajetória. Sua participação na Guerra do Contestado e os eventos que o cercam continuam a despertar interesse e a instigar a busca por mais informações sobre esse enigmático personagem da história regional.
Naquele lugar, Walter Schmidt construiu uma bela casa, bem mobiliada, com cômodos que iam desde uma biblioteca até quartos que acomodavam guarda-roupas e um depósito destinado à guarda de instrumentos utilizados em seus serviços cotidianos de engenharia.
As informações contidas na nota indicam que, enquanto o agrimensor estava a serviço do exército na região leste da área contestada pelo conflito, um regimento vindo do norte do estado atingiu o local de sua residência. O comandante desse regimento, o Capitão Tertuliano Potyguara convenceu a esposa de Walter Schmidt a mudar-se para Canoinhas com a família. Após a mudança, esse mesmo comandante ordenou que seus soldados incendiassem a casa e todas as construções pertencentes ao engenheiro e agrimensor alemão.
Tudo foi destruído pelas chamas: sua biblioteca repleta de livros e documentos, os móveis cuidadosamente escolhidos, as roupas que permaneceram guardadas na residência e os inúmeros instrumentos de trabalho que utilizava em sua profissão. Além disso, seus trabalhos artísticos, que demonstravam sua sensibilidade e talento, foram reduzidos a cinzas. Walter Schmidt também era descrito como um artista refinado, o que torna a perda de seu acervo ainda mais significativa.
De acordo com o General Setembrino de Carvalho, a destruição foi justificada como uma medida para manter a ordem. Entretanto, essa justificativa não convenceu completamente o próprio general, pois via nesse incêndio não apenas um ato de repressão, mas a destruição do fruto de anos de esforço e dedicação de um homem que contribuiu significativamente com seu trabalho e conhecimento.
Em 20 de junho de 1915, o Major do Exército, Doutor Nestor Passos, uma figura de grande importância e reconhecida erudição, concedeu uma entrevista ao jornal O Estado de Florianópolis a respeito da campanha militar conduzida pelo Exército na região contestada. Durante a conversa, foi questionado sobre a veracidade dos rumores que apontavam a presença de espiões alemães infiltrados nas fileiras do Exército, supostamente a mando dos líderes dos redutos.
O Major, sem hesitação, refutou tais alegações e, para reforçar sua posição, mencionou especificamente o nome de Walter Schmidt. Ele afirmou que conhecia bem o alemão e que, em diversas ocasiões, o havia encontrado ao lado do Tenente-Coronel Francisco Raul d’Estillac Leal, oficial de alta patente e de caráter inquestionável. Segundo o Major, Schmidt era um homem de boa índole, de conduta irrepreensível, e jamais demonstrara qualquer atitude que o tornasse suspeito de traição.
Ao ser indagado sobre o incêndio da residência de Walter Schmidt, o Major confirmou que o ocorrido era verídico. Explicou que Schmidt mantinha laços estreitos de amizade com os caboclos que habitavam as regiões mais remotas do interior, fato que despertou desconfiança entre os comandantes militares. Foi essa proximidade com os sertanejos que levou o Capitão Potyguara a ordenar a destruição de sua casa, temendo que ele pudesse, de alguma forma, auxiliar os insurretos.
O repórter, por sua vez, insistiu na tese de que Walter Schmidt, por conhecer minuciosamente os caminhos e particularidades do sertão, teria utilizado esse conhecimento para prejudicar estrategicamente os regimentos do Exército, expondo-os a emboscadas e dificuldades logísticas. Mais uma vez, o Major Nestor Passos refutou veementemente tal acusação, reafirmando sua confiança na lealdade de Schmidt.
Ao longo da entrevista, o nome de Walter Schmidt surgiu novamente, desta vez relacionado a uma de suas habilidades artísticas. O repórter mencionou que Schmidt havia esculpido, com grande destreza artesanal, uma coroa de madeira para Manoel Alves de Assumpção Rocha, um dos fundadores da Irmandade Cabocla. Rocha era amplamente reconhecido entre seus contemporâneos como um dos mais fervorosos adeptos da seita que culminou na chamada Guerra de São Sebastião.
Apesar de estar presente desde os primeiros encontros da liderança insurgente, Rocha nunca exerceu um papel de destaque nos redutos erguidos ao longo do conflito. Sua principal função dentro da irmandade era a de curador, utilizando ervas medicinais para tratar enfermos e feridos. No entanto, sua intensa proximidade com os doentes acabou lhe custando a vida. De tanto lidar com infectados, contraiu uma febre tifoide avassaladora e, sem acesso a tratamento adequado, sucumbiu à enfermidade.
O ancião, conhecido popularmente como "Velho Rocha", deixou sua marca na história não apenas por sua devoção à causa da Irmandade Cabocla, mas também por um episódio peculiar e simbólico: em certa ocasião, autoproclamou-se imperador na localidade de Tamanduá, um gesto que, para muitos, demonstrava sua profunda convicção na missão que abraçara.
O Major ainda explicou que, nas condições de Schmidt, muitos moradores do interior, em algum momento, ajudaram ou prestaram algum serviço aos caboclos dos redutos, também chamados, na época, de fanáticos.
As habilidades artísticas de Walter Schmidt eram conhecidas pelos curitibanenses antes do início do conflito. Em 1911, ele produziu uma cadeira ou poltrona entalhada, utilizando como braços de apoio dois grandes chifres de gado da raça Franqueiro.
Por volta de 1550, gado europeu foi levado para Assunção, no Paraguai, por colonizadores espanhóis. Esse gado se multiplicou rapidamente e começou a se espalhar pelo interior do continente.
A partir do Paraguai, alguns desses bovinos chegaram ao território dos índios guaranis, na região que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai.
Os jesuítas espanhóis trouxeram gado europeu para o Rio Grande do Sul no início do século XVII, por volta de 1634, durante o período das Missões Jesuíticas. Esse gado foi introduzido nas Reduções Jesuíticas, povoados indígenas organizados pelos padres da Companhia de Jesus na região dos Sete Povos das Missões, que atualmente abrange partes do Rio Grande do Sul, Argentina e Paraguai.
Os bovinos trazidos eram, em sua maioria, de origem ibérica, como as raças Mirandesa, Minhota e Alentejana (de Portugal), além de outras de origem espanhola, como a Andaluza. Eles se adaptaram bem aos campos sulinos e se multiplicaram rapidamente, formando imensos rebanhos.
Com a destruição das missões pelos bandeirantes paulistas e a expulsão dos jesuítas no final do século XVIII, muitos desses animais tornaram-se selvagens, dando origem ao chamado gado cimarrón (ou gado xucro). Esses bovinos foram a base do gado gaúcho e deram origem a raças locais, como o Franqueiro ou Crioulo Lageano.
De acordo com a escritora Zélia de Andrade Lemos, os chifres ou aspas do gado Franqueiro eram apreciados pelos serranos como enfeites de parede ou como vasilhas para guardar leite ou água (guampas), às quais se adaptava um bocal de prata.
Foi com a inclusão das aspas do gado Franqueiro no móvel colonial que, em 1911, o Superintendente de Curitibanos da época, Coronel Francisco Ferreira de Albuquerque, conquistou para o município de Curitibanos o 1.º lugar em uma Exposição Internacional de Manufaturados no Rio de Janeiro. Ao concorrer com uma grande quantidade de trabalhos de várias partes do Brasil, os jurados decidiram premiar a poltrona fabricada por Walter Schmidt.
Após a premiação e a conquista do 1.º lugar, a cadeira seguiu para a Europa, onde foi apresentada em uma feira na cidade de Torino, Itália. O trabalho do escultor e topógrafo alemão Walter Schmidt recebeu duas placas de bronze, que atualmente integram o acervo do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza. Uma das placas foi destinada ao Município de Curitibanos e a outra à Superintendência.
Era o ano de 1923, após o incêndio de Curitibanos de 1914, o Convento dos Franciscanos de Curitibanos continuava a exibir o seu aspecto melancólico de abandono. O antigo superintendente, o Coronel Francisco Ferreira de Albuquerque, antes de falecer em 1917, utilizando sua influência política, havia expulsado os frades. Mochilas às costas, bordões de romagem em punho, sacudindo o pó das sandálias ao alcançarem o extremo da rua, seguiram a pé para Lages. Assim convinha a membros de uma ordem fundada pelo “Pobrezinho de Assis”, destinada a viver na mendicância e na humildade.
O “Geral da Ordem Franciscana”, ressentido, jurara que não enviaria mais frades para Curitibanos enquanto Albuquerque permanecesse no poder. O convento permaneceu desabitado, era um espectro de pedra e madeira, e servia como um testemunho silencioso da passagem do tempo.
Durante esse período, o vasto casarão de madeira, erguido à frente de um extenso terreno e cercado por um parque outrora majestoso de ciprestes hirsutos — dos quais, em 1923, restavam apenas alguns exemplares desgarrados, solenes e imponentes — encontrou um morador singular: Jorge Knoll. Ele, que inicialmente tivera a companhia de uma governanta, viu-se depois sozinho, exceto por Vina, uma criança de cinco anos a quem criava. Foi então que ele convidou para morar outro germânico para dividir aquele espaço vasto e silencioso. Esse conterrâneo aceitou o convite sem hesitação, e passeu a compartilhar com ele os dias naquele edifício de ares monásticos, carregado de história e mistério.
Knoll mantinha hábitos rigorosos. Madrugava para banhar-se na piscina do convento, como fazia outrora o idoso Tabelião Carvalho, já falecido. Aos poucos, o casarão voltou a receber algumas visitas ilustres. O juiz de direito, Dr. Barroso, o promotor público, Dr. Albino de Sá Filho, o delegado de polícia, Tenente Delayti, o vereador Caetaninho, o vizinho Altino Gonçalves de Farias e Paulo Bernardoni eram presenças recorrentes. Também aparecia Paulino Pereira da Silva, um dos comandantes do ataque à vila de Curitibanos, ocorrido em 26 de setembro de 1914. Por vezes, a casa era honrada com a visita do superintendente municipal, o Tenente-Coronel Henrique Paes de Almeida Filho. Albuquerque, aquele que outrora expulsara os frades, já havia sido assassinado em tocaia no ano de 1917 — um destino que, tragicamente, também aguardava Henrique Paes de Almeida Filho.
Knoll passava seus dias absorvido em suas atividades: acompanhava atentamente as novidades políticas locais, preparava seu fumo lavado para o cachimbo, escrevia romances publicados pela editora Rottermund e dedicava-se aos cuidados de Vina. Entre reminiscências do passado e versos escritos para a revista Hausfreund, preenchia suas horas com uma aura de erudição e introspecção.
Nas horas de folga, o inquilino que não se identificou deliciava-se ouvindo narrativas de Knoll. Além de ser um homem vivido, possuía um conhecimento enciclopédico, comparável à sua extensa coleção da Brockhaus. Havia sido, no passado, oficial de cavalaria do exército alemão, viajara pelo Oriente e acabara no Brasil após um incidente que o envolvera como testemunha de um duelo entre o tenente Daut e o capitão Emmerich. O embate custou a vida do capitão, e Daut tornou-se o patriarca de uma ilustre família do Rio Grande do Sul.
Certa vez, conversaram sobre Walter Schmidt, um topógrafo de renome que havia prestado inestimáveis serviços ao exército brasileiro na Campanha do Contestado. Além disso, era escultor talentoso, sendo responsável por uma bela imagem de Cristo esculpida para o altar-mor da Igreja Matriz da Vila de Curitibanos.
Foi então que Knoll compartilhou com o amigo uma história intrigante. No início do século, participara de uma festa religiosa na Palhoça, acompanhado por um imigrante austríaco. O ambiente era animado, as barracas de cerveja estavam movimentadas. Quando Walter Schmidt passou por eles, o austríaco interrompeu o movimento do copo a meio caminho dos lábios e, surpreso, observou-o atentamente.
— Senhor Knoll, quem é esse homem? — perguntou, visivelmente aturdido.
— É o agrimensor Walter Schmidt. Reside em Curitibanos há mais de dez anos. — respondeu Knoll.
— Que semelhança extraordinária! — murmurou o austríaco.
— Com quem? — indagou Knoll, intrigado.
No momento em que Schmidt passou novamente por eles, o austríaco o encarou com ainda maior surpresa e exclamou:
— Não pode ser! Eu conheço esse homem! Foi meu coronel, comandante de regimento! É o arquiduque Johan Nepomuceno!
Por mais que Knoll tentasse convencê-lo de que Johan Nepomuceno morrera em um naufrágio, o austríaco permaneceu irredutível. O episódio instigou Knoll, que aprofundou sua amizade com Schmidt e, com o tempo, passou a afirmar que ele era, de fato, Johan Nepomuceno Salvador, Arquiduque da Áustria e Príncipe da Toscana. Knoll dizia ter intermediado cartas entre o arquiduque e sua mãe, e testemunhado um encontro sigiloso entre Schmidt e o cônsul austríaco.
Johan Nepomuceno e o arquiduque Rudolph, herdeiro do trono austríaco, conspiraram contra o imperador Francisco José e caíram em desgraça. Johan Nepomuceno tentou reivindicar o trono da Bulgária, apoiando as pretensões do príncipe Fernando. Rudolph, por sua vez, ambicionava a coroa da Hungria, que buscava sua independência.
Então, ocorreu a tragédia de Mayerling, em 30 de janeiro de 1889. O pesado segredo imperial alimentou muitos rumores. Henry Lanier sustentava que Rudolph não morrera, mas sim simulou um suicídio após assassinar a baronesa Marie Vetsera e fugira para a América do Sul, acompanhado por Johan Nepomuceno Salvador. Em seu lugar, teria sido sepultado um corpo estranho, com a cabeça envolta em faixas para encobrir um tiro fatal.
Johan Nepomuceno renunciou a seus direitos e, sob o nome de Johan de Orth, tornou-se capitão de longo curso, partindo no iate Margareth, que naufragou na Patagônia em 1891. Toda a tripulação pereceu — mas Johan teria sobrevivido milagrosamente. Utilizando documentos de um dos marinheiros, vagou de porto em porto até chegar a Santa Catarina. Evitando os núcleos germânicos de Blumenau e Joinville, onde poderia ser reconhecido, embrenhou-se pelos sertões catarinenses, vivendo ali por mais de trinta anos.
Nos campos do Alto do Tamanduá, fez-se amigo de Bonifácio Papudo e Venuto Baiano, um antigo marinheiro da Armada Brasileira. Sentindo-se ameaçado após a execução de Venuto Baiano por ordem de Francisco Alonso de Souza, disfarçou-se com o lenço branco e a cruz verde e buscou refúgio junto a João Goetten Sobrinho, teuto-brasileiro da Fazenda Corisco. Por conselho deste, procurou as forças federais sob o comando do tenente-coronel Francisco Raul d’Estillac Leal.
O tenente Herculano Teixeira de Assumpção, do 58.º Batalhão de Caçadores, que lidou pessoalmente com Schmidt, descreveu-o como um homem leal, hábil topógrafo e exímio artesão. “Quando ele se arma do seu onglete, grava com rapidez e notável perfeição, quer na madeira, quer na pedra e no metal, quer no corno, no osso ou no Marfim. O misantropo artífice burila e cinzela com a admirável destreza de um mestre, é um escultor dos sertões.”
Seria verdade a identificação do enigmático Walter Schmidt, ou fruto da imaginação de romancistas? O que justificaria a presença de um homem culto e talentoso em um recanto isolado dos sertões catarinenses?
No dia 6 de novembro de 1963, o então prefeito de Curitibanos, Dr. Hélio Anjos Ortiz, utilizando-se da Lei Ordinária Municipal n.º 536/1963 denominou uma rua do município, localizada no bairro São Luiz com o nome de Rua Walter Schmidt.
Referências para o texto:
GAERTNER. C. o Agrimensor Walter Schmidt. Blumenau em Cadernos, Tomo XV, Blumenau/SC, 1974, p. 27 – 29.
POPINHAKI, Antonio Carlos. A Guerra Santa de São Sebastião na região do Contestado — (1912-1916).
LEMOS, Zélia de Andrade. Curitibanos na História do Contestado. Edição do Governo do Estado de Santa Catarina, 1977. Curitibanos.
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