sábado, 1 de agosto de 2026

João Maria de Agostini




Texto original de Oswaldo Rodrigues Cabral de 1960, adaptado e atualizado por Antonio Carlos Popinhaki


Houve um anacoreta, alguém que se isolou inteira­mente da sociedade para se dedicar à oração, à penitência e à contemplação. De cabelos grisa­lhos, barba longa e olhar manso, ele buscava a quietude e as austeridades da vida contempla­tiva, passando longas horas em oração e êxtase, à semelhança daqueles que renunciaram ao convívio humano para se aproximar de Deus.

Em sua vida terrena, ele foi simples, bom e justo. Severo consigo mesmo, mas compassivo com o próximo, era um indigente que repartiu com os semelhantes o único bem que possuía: a sua fé. A contragosto, acabou empurrado para dentro da História pela astúcia e pela ignorância alheias; e, levado pela ingenuidade de muitos, subiu os degraus de um rústico altar sertanejo, aclamado como homem santo e profeta.

Sua memória é denegrida por alguns, que o apontam como louco, e por outros, que o acusam de desencadear uma carnificina, pois a crença nos eremitas do século XIX e início do XX foi a principal causadora da formação da Irmandade Cabocla, parte responsável pelo conflito social que ficou conhecido como “A Guerra do Contestado”, que dizimou milhares de vidas. Em contrapartida, mesmo após 180 anos, ele continua a habitar o lugar dos eleitos no coração dos simples. Frequenta suas orações singelas, acalenta suas esperanças, povoa seus temores e fortalece sua fé. Ocupa um espaço sagrado em seus oratórios, canonizado pelo afeto do sertanejo, do caboclo e do povo humilde, ao lado daqueles a quem a justiça e a sabedoria popular aclamaram como santos. Esse homem se chama João Maria de Agostini, para os devotos, apenas São João Maria.

Nascido como Giovanni Maria de Agostini por volta de 1801, em Sizzano, na região do Piemonte (Itália), o futuro monge era oriundo de uma família de posses modestas. Pouco se sabe com precisão documental sobre sua juventude, mas registros indicam que ele recebeu educação formal e demonstrou, desde cedo, inclinação para a vida ascética e para o estudo das Escrituras e de textos de medicina natural. Em sua terra natal, a família vivia na propriedade La Bergamina, pertencente ao conde Luigi Tornielli, onde moravam o casal Mattias de Agostini e Maria Domênica, os filhos Maria Francesca e Giovanni Maria, além de uma tia.

No ano seguinte ao seu nascimento, a família deixou a propriedade e rumou para um destino desconhecido. Como trabalhadores rurais, devem ter se deslocado em busca de serviço temporário, submetidos a uma existência itinerante e de pura subsistência, comum a tantas famílias do norte italiano na época. Após 1802, nenhum outro indício foi encontrado a respeito da família na região de Piemonte. Há hipóteses não confirmadas, como a morte precoce da mãe, mas sem comprovação documental em Sizzano ou Fontaneto d’Agogna.

O primeiro registro de sua fase adulta surge apenas em 1833: um passaporte emitido em Novara para que pudesse viajar ao Reino de Nápoles. Esse documento é historicamente relevante por conter a primeira menção física de Agostini como “aleijado nos dedos da mão esquerda”, detalhe que reapareceria em 1844 em Sorocaba (Brasil) e que se mostraria decisivo para identificá-lo em fotografias posteriores tiradas em Havana (1861) e no Novo México (1867). É provável que nessa época ele já preparava sua partida definitiva para a América.

Antes de atravessar o Atlântico, entre 1830 e 1833, Agostini peregrinou intensamente pela Europa, especialmente pela Espanha (passando por Zaragoza, Compostela e Montserrat). Tentou ingressar em ordens contemplativas como os cartuxos e trapistas, mas abandonou os mosteiros por não se adaptar ao modo de vida comunitária dos religiosos. Foi em Roma que fez votos de castidade, obediência e pobreza sob a inspiração de Santo Antônio Abade, prometendo servir a Deus nos desertos do mundo. Em meados de 1838, encontrava-se em Nantes, na França, de onde embarcou rumo ao Novo Mundo.

Na década de 1830, impulsionado por esse voto de peregrinação, Agostini iniciou uma das viagens solitárias mais extensas registradas no século XIX: viajou pela Europa e seguiu para a América do Sul, desembarcando na região do Rio da Prata, de onde percorreu a pé a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia, o Peru e o Chile, alimentando-se de doações e vivendo em cavernas ou abrigos improvisados, até entrar no Brasil, na década de 1840, pelo Rio Grande do Sul, percorrendo posteriormente Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.

Pregava pelas cidades com a autorização de bispos locais, que frequentemente tentavam retê-lo como pároco. Entre 1839 e 1841, viveu em uma caverna isolada em Motupe (Peru), onde mantinha a rotina de caminhar quilômetros para assistir à missa, prestar auxílio a doentes e recitar o rosário com a comunidade local.

Em novembro de 1842, esteve em Lima e, no ano seguinte, seguiu para Moyabamba, uma cidade do Peru. Incomodado com o barulho das cidades grandes, tomou o Rio Maranhão que nasce no Peru a 5.800 metros de altitude em maio de 1843 e navegou pelo Rio Amazonas rumo ao Brasil. Passou por Tabatinga, Belém do Pará e fez uma breve parada em Natal para tratar de uma febre, até desembarcar no Rio de Janeiro em 19 de agosto de 1844 como tripulante do vapor Imperatriz.

Na então capital do Império, buscou isolamento na Pedra da Gávea durante quatro meses, onde viveu como artesão, trocando rosários e crucifixos por mantimentos oferecidos por benfeitores locais. Em dezembro de 1844, partiu de barco para Santos e subiu a serra rumo a Sorocaba. Registrado na cidade em 24 de dezembro como “solitário eremita a serviço de seu ministério”, de 43 anos, instalou-se temporariamente no morro do Araçoiaba antes de prosseguir sua jornada rumo ao sul do Brasil.

Em dezembro daquele mesmo ano de 1844, às vésperas do Natal, foi encontrado um registro na Câmara Municipal de Sorocaba, na Província de São Paulo, que apontava a sua permanência no município, juntamente com o documento que comprovava a sua chegada ao Rio de Janeiro.

Na ocasião, declarou-se solteiro e afirmou exercer a profissão de “solitário eremita”, informando que viajara para desempenhar seu ministério. Encontrava-se residindo nas matas do termo da cidade, nas proximidades do Morro de Araçoiaba, onde se situava a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, o mais importante empreendimento siderúrgico do Brasil durante boa parte do século XIX.

O serventuário da Câmara responsável pelo registro, Procópio Luís Leitão Freire, anotou, na ocasião, os sinais antropométricos de praxe (medidas características físicas). Descreveu João Maria de Agostini como sendo de baixa estatura e pele clara, com cabelos grisalhos, olhos pardos, nariz e boca regulares, barba cerrada e rosto comprido. Como sinal particular digno de nota, registrou que era aleijado de três dedos da mão esquerda.

Parte da permanência de João Maria de Agostini na região de Sorocaba pôde ser reconstruída por meio da tradição oral. Outros aspectos, contudo, permanecem envoltos em incertezas, o que não causa estranheza quando se trata de um homem que escolheu viver em isolamento e mantinha pouco contato com a sociedade.

Segundo Aloísio de Almeida, pseudônimo do reverendo cônego Luís Castanho de Almeida, prolífico historiador e presidente do Instituto Histórico de Sorocaba, o eremita estabeleceu-se em uma gruta localizada no Morro de Araçoiaba, mais tarde conhecida como Pedra Santa, nas proximidades da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema. Vestia um hábito, provavelmente franciscano, sobre o qual caíam os longos cabelos e a espessa barba. Dormia sobre uma tábua e alimentava-se de frutos silvestres e das doações oferecidas pelos sitiantes da região.

Com o passar do tempo, tornou-se conhecido como o “Monge do Ipanema”. Raramente descia até a Vila da Fábrica e, quando o fazia, despertava sentimentos distintos entre os moradores. Enquanto muitos caipiras o tratavam com respeito, misturado a certo temor, alguns operários o recebiam com irreverência e zombarias. Nas noites silenciosas, recolhido à sua gruta, costumava entoar salmos e orações em voz alta. Seus cânticos ecoavam pelas encostas do morro e podiam ser ouvidos na vila, onde alguns operários, em tom de brincadeira, diziam: “O bugio está roncando na serra.”

O mesmo autor relata que o Monge João Maria deixou Sorocaba em duas ocasiões. A primeira ocorreu em data incerta. Aloísio de Almeida não informa quando isso aconteceu, mas João Lourenço da Silva, em seus Apontamentos para a História da Fábrica de Ferro do Ipanema, afirma que essa ausência não ocorreu antes de 1851. Algum tempo depois, João Maria retornou à sua gruta, já durante a administração do coronel Joaquim de Sousa Mursa na Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema.

A segunda e definitiva partida teria ocorrido, segundo Aloísio de Almeida, em 1865. João Lourenço Rodrigues, por sua vez, aponta o ano de 1870. Apesar da divergência entre as fontes, ambos concordam que, após essa viagem, o eremita nunca mais regressou à região.

Um sitiante que vivia nas proximidades e era compadre e vizinho do avô de João Lourenço Rodrigues relatou ter visitado João Maria em seu retiro. Segundo seu depoimento, o abrigo do monge era uma cavidade natural na rocha. Sua alimentação era extremamente simples e frugal, enquanto uma nascente que brotava ao lado do penhasco lhe fornecia água pura e fria, a única bebida que consumia.

Com o tempo, outros sitiantes passaram a visitar o solitário da Pedra Santa. A fama de sua vida austera e dedicada à oração espalhou-se pela região, transformando o local em destino de piedosas peregrinações e fortalecendo a devoção popular em torno da figura de João Maria.

Antônio Gaspar, por sua vez, transcreveu da coleção de jornais antigos preservada na Biblioteca do Gabinete de Leitura Sorocabano a notícia de que João Maria, em determinadas ocasiões, comparecia à Capela da Fábrica de Ferro. Após a missa celebrada pelo padre Antônio Dias de Arruda, dirigia algumas palavras aos fiéis reunidos, sendo ouvido por centenas de pessoas e recebendo ampla aceitação entre os presentes.

A tradição oral também relata que o eremita percorreu a região erguendo cruzes em diversos locais. Em um bairro situado às margens da estrada entre Araçoiaba da Serra, então conhecida como Campo Largo, e a cidade de Tatuí, existiu um cruzeiro (um monumento religioso formado por uma cruz de madeira) que, segundo a memória popular, teria sido levantado por João Maria.

O episódio mais significativo, porém, refere-se à construção de um conjunto de quatorze cruzes nas proximidades da encruzilhada onde o antigo caminho entre Sorocaba e Itapetininga se encontrava com a estrada para Tatuí. Os moradores mais antigos afirmavam que esse conjunto, semelhante a uma Via-Sacra, havia sido erguido pelo solitário da Pedra Santa com o auxílio dos sitiantes da região.

Esse costume parece ter acompanhado João Maria por outras localidades do Sul do Brasil. Em Mafra, Santa Catarina, e no Campestre, no Rio Grande do Sul, a tradição também lhe atribui a construção de conjuntos de quatorze cruzes, erguidos com o mesmo propósito: incentivar a devoção ao símbolo maior da fé cristã.

Todos os relatos sobre a permanência de João Maria nas proximidades de Sorocaba o descrevem como um homem profundamente religioso, de hábitos simples, vida austera e conduta marcada pela sobriedade. Recolhido em seu abrigo, dedicava grande parte do tempo à oração, aos cânticos religiosos e à contemplação, mantendo uma existência voltada para a espiritualidade.

Sempre que possível, participava da celebração da missa na capela da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema. Ao término das celebrações, costumava dirigir algumas palavras aos fiéis. Não há registros de que suas pregações contivessem ideias contrárias à doutrina da Igreja Católica ou que provocassem conflitos de natureza religiosa. Caso isso tivesse ocorrido, é razoável supor que sua atuação teria sido prontamente contestada pelo sacerdote responsável pela capela ou pelos administradores da Fábrica, em cujas proximidades vivia.

Apesar da reputação de homem piedoso, João Maria frequentemente se tornava alvo das brincadeiras dos operários da Fábrica. Segundo Aloísio de Almeida, as zombarias dirigiam-se às suas vestes incomuns, aos longos cabelos, à barba, aos gestos, às atitudes e, possivelmente, ao modo de falar com sotaque italiano. Em algumas ocasiões, o eremita respondia com advertências aos jovens, atitude que, conforme o autor, era tolerada pelo diretor Joaquim de Sousa Mursa, que aparentemente preferia preservar a tranquilidade daquele pacífico e singular morador das matas de Araçoiaba.

Em contraste com a atitude de parte dos operários da Fábrica, os moradores das áreas rurais vizinhas demonstravam profundo respeito por João Maria. A tradição sugere que muitos o viam como um homem santo, cujas palavras inspiravam reverência e, por vezes, certo temor, semelhante ao que, segundo os relatos bíblicos, cercava os antigos profetas. Eram esses sitiantes que o auxiliavam a plantar e erguer os cruzeiros, além de cuidar de sua conservação e da limpeza dos locais onde eram instalados.

Pelas fontes disponíveis, percebe-se que João Maria vivia a religião com grande intensidade. Sua espiritualidade, embora marcada por um rigor caracterizado pela renúncia aos prazeres materiais e pela disciplina espiritual, com o objetivo de alcançar maior proximidade com Deus ou aperfeiçoamento moral. João Maria, certamente, era uma pessoa incomum, manteve-se, ao que tudo indica, em conformidade com a doutrina da Igreja Católica. Não há registros de que tenha sido alvo de censuras ou sanções eclesiásticas, tampouco de que suas práticas religiosas tenham despertado preocupação por parte das autoridades civis ou religiosas. Se isso tivesse ocorrido, é provável que os jornais da época ou os pesquisadores que consultaram essa documentação tivessem deixado algum registro.

Também não é possível determinar com exatidão quanto tempo João Maria permaneceu em seu retiro na Pedra Santa. Sabe-se que chegou à região em 1844, mas as datas de suas peregrinações pelo Sul do Brasil permanecem objeto de divergência entre as fontes. Grande parte dessas informações foi preservada pela tradição oral, cuja transmissão, embora valiosa, nem sempre permite estabelecer uma cronologia precisa.

Independentemente de ter permanecido quatro, cinco ou sete anos em sua primeira passagem por Araçoiaba, esse período foi suficiente para que se tornasse conhecido em toda a região. Da mesma forma, não existe memória de que tenha procurado formar seguidores ou criar uma nova seita religiosa. Ao contrário, tudo indica que João Maria jamais rompeu com a Igreja Católica nem tentou introduzir mudanças em seus ensinamentos ou práticas litúrgicas.

Quando conversava com os visitantes, seus assuntos giravam em torno da fé, da oração, da penitência e da vida cristã, sempre em sintonia com os princípios da Igreja. Essas conversas, entretanto, eram ocasionais. João Maria preferia o silêncio e a solidão de sua gruta, onde dedicava longas horas à contemplação, à oração e às práticas de mortificação. Evitava vínculos mais estreitos com a comunidade e, por esse motivo, suas ausências muitas vezes passavam despercebidas pelos moradores da região.

É inegável, contudo, que, em determinado momento de sua vida, João Maria empreendeu uma longa peregrinação pelo Sul do Brasil.

Sua passagem deixou registros e tradições no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Sabe-se que esteve em localidades como Lapa, Rio Negro, Lages, Botucaraí e Santa Maria. O caminho percorrido entre esses lugares, entretanto, permanece desconhecido.

Buscando reconstruir esse itinerário, é natural supor que tenha seguido, ao menos em parte, o antigo Caminho das Tropas, utilizado pelos tropeiros que conduziam o gado desde o Sul até Sorocaba. Dessa forma, supõe-se que tenha passado pela região que era conhecida como Quarteirão de Curitibanos, antes de 1851. 

Apesar dessa hipótese, não foi possível estabelecer com segurança o trajeto percorrido pelo eremita. O maior obstáculo reside na cronologia. As informações sobre suas viagens baseiam-se, em grande parte, na tradição oral, cujas datas são frequentemente imprecisas. Assim, embora os lugares associados à presença de João Maria sejam conhecidos, a sequência e o período exato de sua passagem por cada um deles permanecem incertos.

Diante dessa limitação, os documentos disponíveis não permitem acompanhar sua peregrinação passo a passo. Por essa razão, a narrativa passa diretamente de Sorocaba para Campestre de São Pedro, no atual Rio Grande do Sul, permanecendo um intervalo de tempo cuja reconstrução depende, por enquanto, apenas de hipóteses fundamentadas e de indícios preservados pela memória popular.

O primeiro testemunho da chegada de João Maria de Agostini no Rio Grande do Sul conhecido e registrado foi elaborado por Felicíssimo Manuel de Azevedo. Motivado por artigos publicados por Múcio Teixeira no Jornal do Comércio, em março de 1895, Azevedo decidiu relatar suas próprias lembranças no jornal A Federação. Em seu depoimento, afirmou ter conhecido pessoalmente o eremita e convivido com ele durante trinta e cinco dias, entre setembro e outubro de 1848, no Campestre, próximo à cidade de Santa Maria.

Embora escrito décadas após os acontecimentos, esse relato reúne informações valiosas, posteriormente complementadas por outros autores gaúchos, permitindo reconstruir, ainda que de forma parcial, a trajetória de João Maria de Agostini no sul do país.

Segundo Felicíssimo de Azevedo, João Maria chegou a Porto Alegre no início de 1848. Logo após sua chegada, apresentou-se ao então presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, o general Andréa, identificando-se como um peregrino italiano chamado João Maria de Agostini. Explicou que percorria o continente em cumprimento de uma promessa feita à Virgem Maria e solicitou autorização para obter uma imagem de Santo Antão, proveniente das antigas Missões Jesuíticas, com a intenção de construir uma pequena capela dedicada ao santo.

O presidente da Província respondeu que o assunto competia às autoridades eclesiásticas e orientou o monge a procurar o padre Tomé Luís de Sousa. Não há registros sobre o resultado desse encontro. Sabe-se apenas que, pouco tempo depois, João Maria deixou Porto Alegre e estabeleceu-se no Campestre, onde iniciaria uma das fases mais conhecidas de sua peregrinação.

Felicíssimo de Azevedo relata que permaneceu durante trinta e cinco dias no Campestre, acompanhando diariamente as práticas religiosas do eremita. Segundo seu testemunho, João Maria plantou cruzes ao longo da encosta do morro, que o autor afirma terem sido dezessete, e, no alto, construiu uma pequena capela dedicada a Santo Antão, onde foi colocada uma imagem do santo sobre um altar cuidadosamente preparado. Também menciona as primeiras notícias sobre a fama das águas da fonte existente junto ao morro, consideradas milagrosas por muitos devotos.

Outro importante testemunho encontra-se na obra As Missões Orientais e seus Antigos Domínios, de Hemetério José Velloso da Silveira. O autor registra que João Maria afirmava ter deixado São Paulo e atravessado longas regiões de mata até alcançar a fronteira com o Paraguai. Dali teria seguido pelas antigas Missões, passado por São Borja e alcançado a região do Morro Botucaraí, antes de regressar ao Campestre, onde escolheu uma nascente de águas cristalinas para estabelecer seu retiro.

Segundo Hemetério, foi nesse local que João Maria organizou, com o auxílio de moradores da região, a construção de uma pequena ermida dedicada a Santo Antão. A imagem venerada na capela teria pertencido a um antigo templo missioneiro e permanecido sob a guarda de um morador local.

A cronologia dessa peregrinação, entretanto, continua cercada de incertezas. Felicíssimo de Azevedo situa os acontecimentos em 1848. Hemetério Veloso da Silveira também associa esse período ao auge da movimentação religiosa provocada pela presença do monge. Já João da Silva Belém, em sua História do Município de Santa Maria, sustenta que João Maria de Agostini chegou ao Campestre em 4 de maio de 1846, baseando-se na tradição de uma família que teria dado ao filho recém-nascido o nome de João Maria em homenagem ao eremita. Borges Fortes, por sua vez, retrocede ainda mais essa data, afirmando que a chegada teria ocorrido em 1844.

Essa última hipótese, contudo, não se harmoniza com a documentação existente. O registro da Câmara Municipal de Sorocaba comprova que João Maria encontrava-se naquela cidade no final de 1844, tornando praticamente impossível sua presença simultânea no Rio Grande do Sul. A data proposta por João da Silva Belém permanece plausível, embora dependa exclusivamente da tradição oral, enquanto os relatos de Felicíssimo de Azevedo e Hemetério Veloso da Silveira parecem referir-se não propriamente à chegada do eremita, mas ao período em que sua presença já despertava intensa devoção popular.

Diante das evidências disponíveis, é provável que João Maria tenha deixado Sorocaba, atravessado os sertões do interior em direção ao Paraguai e, posteriormente, ingressado no Rio Grande do Sul por São Borja. Durante essa longa jornada teria conhecido a imagem de Santo Antão, venerada nas antigas Missões, concebendo a ideia de construir uma capela dedicada ao santo. Somente depois de encontrar, no Campestre, um local que considerou apropriado para seu retiro, dirigiu-se a Porto Alegre em busca da autorização necessária para concretizar o projeto.

O percurso exato dessa peregrinação e o tempo despendido em cada etapa continuam desconhecidos. Grande parte dessa trajetória permanece reconstruída a partir da tradição oral e de testemunhos registrados muitos anos após os acontecimentos. Ainda assim, o conjunto dessas fontes permite compreender como João Maria de Agostini consolidou sua fama de eremita e peregrino muito antes de se tornar uma das figuras religiosas mais emblemáticas do Sul do Brasil.

A seguir, temos algumas informações sobre a fase messiânica e a devoção no Campestre, Santa Maria. Embora esses detalhes iniciais sejam relevantes para a sequência de nossa análise, o aspecto de maior importância diz respeito às atividades de João Maria de Agostini, à ortodoxia de sua fé e às doutrinas que propagava.

Após examinar os testemunhos colhidos em Sorocaba por pesquisadores que se debruçaram sobre o instigante italiano, cumpre fazer o mesmo com as fontes gaúchas a respeito de sua chegada ao Rio Grande do Sul.

Uma das principais testemunhas desse período foi Felicíssimo Manuel de Azevedo, que presenciou as pregações do Monge no Campestre e descreveu a dinâmica do culto local. numa escrita atualizada encontramos o seu depoimento:


“Sua longa barba e o hábito atraíram e impressionaram o povo simples, que o via como um novo Messias. Pregava diariamente e, dizendo-se inspirado por Deus, reuniu assim, uma multidão de devotos. Ao descobrir uma fonte abundante na encosta do morro, fez dela o centro de seu poder misterioso e de seus supostos milagres. Do lado oposto, abriu uma picada morro acima para transformar a subida em um calvário, instalando ao longo do percurso 17 grandes cruzes de madeira rústica. No topo, em um planalto, ergueu a Capela de Santo Antão, abrigando em um altar bem preparado a imagem do santo.

Ao pôr do sol, quando as sombras cobriam o morro, o sinal para a oração do grupo, que já somava cerca de 200 pessoas, era dado por um tiro de pistola ao pé da primeira cruz. Todos se ajoelhavam para rezar o terço. Quando o Monge estava presente, ele discursava após a prece, incentivando as virtudes cristãs e exortando o povo a pedir a Deus e à Virgem Maria o fim de seus males com o uso daquela água considerada milagrosa.

Os fiéis tiravam os sapatos na entrada da picada para subir a encosta íngreme com os pés descalços e a cabeça descoberta. Para ajudar os mais idosos e debilitados, amarrou-se cordas de couro nas árvores ao longo do trajeto. O doente devia parar e orar diante de cada uma das 17 cruzes, levando cerca de uma hora para completar o percurso. No topo, ao chegar à capelinha, descansava em um banco rústico antes de descer rapidamente até a rocha de onde jorrava a nascente. Ali, ajoelhava-se em um cepo de madeira e recebia a água despejada sobre a cabeça com uma caneca presa por uma corrente. A água era despejada devagar, na quantidade desejada pelo fiel, mas sempre em números ímpares. Concluído o ritual, a orientação era subir o morro às pressas para reaquecer o corpo, mantendo as roupas molhadas até que secassem naturalmente.”


Felicíssimo também deixou um depoimento insuspeito sobre os romeiros: cada um armava sua tenda como podia e o ambiente era de profunda fraternidade e respeito às famílias. Ele destacou que “era bonito ver a romaria penitencial subir o morro ao clarear do dia”. A capela permanecia cheia e as doações deixadas no cofre ao lado do altar eram abertas periodicamente na presença do Monge: retinha-se apenas o necessário para a manutenção do culto e o restante era distribuído aos pobres.

Os doentes acorriam em busca de cura para todo tipo de enfermidade, era a alternativa final para quem não tinha recursos para pagar médicos, para quem vivia a centenas de quilômetros de qualquer atendimento ou para aqueles que a medicina já havia desenganado.

Muitos relatavam alívio e outros afirmavam ter alcançado a cura completa. Havia também os doentes de males psicológicos ou imaginários que, confortados pela fé e pela atmosfera sagrada do local sob o céu aberto, sentiam-se prontos para restabelecer a saúde.

Quanto ao culto a Santo Antão e os registros da época, o historiador Hemetério Veloso da Silveira relata que João Maria instituiu formalmente a devoção a Santo Antão Abade, celebrando sua festa na data tradicional fixada pela Igreja (17 de janeiro) com procissão da imagem. Na base do morro, construiu uma nova capela em terras doadas por um morador local chamado Jesuíno.

Hemetério assinala ainda que a imprensa das grandes cidades do Império acompanhou de perto o fenômeno do eremita que realizava missões e prodígios no interior. Um dos jornais da época, a Gazeta dos Tribunais (da Corte do Rio de Janeiro, em 1848), fez referências bastante elogiosas às suas ações. Contudo, na visão do historiador gaúcho, o Monge não passava de um homem de pouca instrução movido por uma obsessão religiosa.

O historiador João da Silva Belém traz detalhes complementares sobre esse impacto:


A conhecida hospitalidade da nossa campanha, somada ao sentimento religioso que o místico peregrino espalhava, transformou rapidamente aquele desconhecido em um guia e conselheiro para um povo ansioso por esperança. O Monge João Maria surgiu justamente nesse momento. Embora não fosse um sacerdote instruído, era movido por um fervor religioso que o levava por montes e vales, transmitindo aos doentes e necessitados a resignação e a fé que remove montanhas. Se a sua dedicação era vista por alguns como obsessão, tratava-se de uma força voltada exclusivamente para a prática do bem. Ao chegar ao Campestre, pregou que fora enviado por Deus para iluminar o caminho da virtude. Sua fala mansa e serena conquistou o coração daquela gente simples, e logo João Maria passou a ser venerado como santo.”


A imagem de Santo Antão utilizada na capela teria sido trazida por João Maria da região das Antigas Missões, segundo o historiador Borges Fortes. A fama das águas da fonte do Campestre espalhou-se rapidamente, transformando o sítio em um grande ponto de peregrinação para enfermos vindos não apenas do Rio Grande do Sul, mas também de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Uruguai e Argentina.

Borges Fortes confirma o fluxo constante de devotos, mas menciona a presença de 14 cruzes na subida do morro, e não 17, número que se ajusta com precisão às 14 estações da Via Sacra tradicional (mesmo padrão adotado por João Maria durante sua passagem por Sorocaba).

Diante desses dados, percebe-se que a trajetória espiritual de João Maria de Agostini entrava em uma nova fase. O eremita solitário, que em Sorocaba se dedicava predominantemente à contemplação em cumprimento de um voto pessoal, inaugurava agora uma atuação de forte apelo messiânico e comunitário. O retiro isolado nas grutas já não lhe bastava: ele passa a organizar devoções públicas, ergue uma capela, finca as estações da Via Sacra e assume o papel de pregador diante de multidões que o veem como um enviado divino.

Apesar da devoção popular ao seu redor, o conteúdo de sua pregação mantinha-se rigorosamente fiel à doutrina católica. João Maria ensinava as virtudes evangélicas tradicionais, a submissão aos ensinamentos da Igreja e o culto aos santos reconhecidos pelo catolicismo. Não fundou uma nova seita, não pregou revoltas e tampouco se proclamou um novo profeta; comportava-se como um apóstolo humilde focado em servir e aconselhar.

A intensa comoção popular e a tendência do povo em venerá-lo diretamente, às vezes arriscando eclipsar a própria figura de Santo Antão, podem ter sido a razão pela qual o Monge decidiu abandonar o local e retornar ao isolamento do Morro Botucaraí.

Antes de partir, deixou um documento aos zeladores (fabriqueiros) da Capela do Campestre. Trata-se de um testamento espiritual e administrativo, ditado por ele e redigido por um terceiro. No texto, estabelece diretrizes para a manutenção do culto a Santo Antão Abade, a quem descreve como “grande santo solitário dos desertos do Egito, protetor dos animais e contra os males do campo”, orienta a organização da festa anual de 17 de janeiro e disciplina a distribuição de esmolas aos necessitados.

Hemetério Veloso da Silveira examinou esse documento original em papel holandês e registrou a identificação do autor escrita no texto: “João Maria de Agostini, Solitário Eremita do Serro do Campestre de Santa Maria da Boca do Monte e do Serro do Botucaraí, 1849”. À margem do papel, em caligrafia quase indecifrável, constava a assinatura em latim: Joannes Mã de agostini, sol. erem. de botucaray (João Maria de Agostini, solitário eremita de Botucaraí).

Se houvesse qualquer dúvida de que o eremita do Rio Grande do Sul era a mesma pessoa que havia erguido as cruzes na Pedra Santa de Araçoiaba em São Paulo, essa assinatura serviu como prova definitiva: o traçado e a forma de registrar seu título de “solitário eremita” coincidem com os registros deixados por ele anos antes na Câmara Municipal de Sorocaba.

Atualmente, a devoção a Santo Antão permanece viva em Santa Maria (RS), embora em moldes diferentes daqueles descritos nas fontes do século XIX. O culto concentra-se no Distrito de Santo Antão, cuja própria origem histórica está ligada à passagem de João Maria de Agostini. A Prefeitura de Santa Maria reconhece oficialmente que a tradição religiosa local foi marcada pela presença do monge italiano, que teria presenteado a comunidade com uma imagem de Santo Antão. A Capela de Santo Antão é considerada uma das mais antigas do município, e a Festa de Santo Antão continua sendo realizada anualmente.

Em toda essa análise sobre a figura de João Maria de Agostini, um místico humilde que migrou de São Paulo para o Rio Grande do Sul e acabou, quase por força das circunstâncias, inserido na história brasileira, chama a atenção um fato inédito: sua devoção a Santo Antão Abade. Não há registros desse culto em sua passagem por São Paulo, tampouco nos eventos posteriores de sua vida.

Tanto pelos escritos deixados aos devotos do Campestre quanto pela caligrafia revelada na assinatura de Sorocaba, fica evidente que João Maria não era um homem instruído. Sua letra era trêmula e irregular, típica de quem pouco dominava a escrita, talvez mal soubesse assinar o próprio nome. Contudo, possuía conhecimentos religiosos acima do comum. As referências ao santo eremita no texto de seu “testamento” mostram-se precisas e perfeitamente alinhadas aos ensinamentos clássicos da Igreja.

Veremos agora quem foi Santo Antão Abade. Santo Antão (ou Santo Antônio Abade), cuja festa a Igreja celebra em 17 de janeiro, viveu entre os séculos III e IV no Egito. Seu título de abade decorre do grande número de discípulos que reuniu ao seu redor. Também conhecido como “Santo Antônio dos Animais”, a tradição conta que ele amansava e abençoava feras no deserto.

Ao retirar-se para uma vida de austeridade e penitência, Antão superou célebres tentações. Homens inspirados por seu exemplo estabeleceram-se ao redor de sua morada para ouvi-lo, tornando-o o patriarca do seu modo de viver isolado dentro do cristianismo, por isso, diversos autores o chamam de “Antônio, o Grande”. Na devoção popular cristã, é considerado protetor contra doenças dos animais e enfermidades da pele, como o herpes-zóster e o erisipela (historicamente conhecidos como “fogo de Santo Antão”).

Embora seja um santo muito popular na Europa, presente no folclore e em benzeduras, Santo Antão não contava com grande apelo no Brasil. Na arte erudita, porém, a iconografia das “Tentações de Santo Antão” inspirou inúmeras telas ao longo dos séculos.

Como seguidor da Tradição dos Padres do Deserto, João Maria de Agostini conhecia a história e a teologia em torno de Santo Antão, sabendo resumir com exatidão os atributos reconhecidos pela Igreja. No entanto, não havia manifestado esse culto anteriormente, nem a devoção era praticada pelos habitantes do Campestre. Tudo indica que, ao encontrar uma imagem do santo durante sua passagem pela região das Antigas Missões, possivelmente na casa de algum morador, o Monge resolveu erguer-lhe uma capela para difundir o culto ao seu modelo espiritual.

Esse detalhe é fundamental para rebater a tese de alguns autores da época, que o definiram como um homem de ignorância absoluta ou vítima de uma obsessão fixa por uma única ideia, tema ou objetivo religioso.

Seu conhecimento sobre o catolicismo não foi improvisado no Brasil; ele já o trazia da Europa antes de se entregar à vida eremítica. Além disso, sua religiosidade apresentava comportamentos variados e adaptáveis, bem distantes da ideia rígida de um obsessivo.

Tudo indica que essa fase pública e “messiânica” de João Maria de Agostini durou pouco. Ele demonstrava clara preferência pela solidão e pelo recolhimento em detrimento da pregação e da fama. Assim, deixou a manutenção da capela a cargo dos próprios moradores do Campestre e retornou ao retiro isolado no Morro Botucaraí.

Ali permaneceria em paz por mais tempo, não fosse a intervenção do presidente da Província do Rio Grande do Sul, o general Soares de Andréia, figura conhecida por seus métodos autoritários e violentos em atuações anteriores no Pará e em Santa Catarina.

A repercussão das supostas águas milagrosas da fonte do Campestre, cuja fama de curar diversos males ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Sul e se espalhou por todo o sul do país, levou o presidente da província, o general Soares de Andréia, a determinar uma análise oficial da nascente.

Sua intenção tinha um duplo objetivo: se o exame revelasse propriedades medicinais, a água poderia ser explorada científica e comercialmente; caso contrário, a ausência de qualidades curativas desmistificaria os prodígios atribuídos ao local, desconstruindo o prestígio do Monge perante seus devotos.

Em cumprimento a uma lei provincial aprovada em julho de 1848, Andréia nomeou uma comissão de médicos e farmacêuticos para examinar as águas da fonte de Santa Maria da Boca do Monte. Conforme registra Hemetério Veloso da Silveira, a análise química não encontrou no líquido “quaisquer propriedades medicinais ou de prodígio milagroso”. O historiador João da Silva Belém confirma a conclusão das autoridades: a água do Campestre “era muito boa para ser bebida, mas não possuía propriedade curativa alguma”.

Apesar dos laudos científicos, a devoção popular permaneceu inabalável. Para os fiéis, a constatação de que a água era quimicamente comum só reforçava o caráter milagroso das curas que continuavam a ser relatadas.

A frustração do presidente provincial deu lugar à indignação ao constatar que a fé do povo não diminuíra. Antecipando que aquela grande aglomeração de peregrinos e enfermos pudesse se transformar em um foco perigoso de fanatismo, Andréia ordenou a prisão do eremita.

A essa altura, João Maria já havia deixado o Campestre e se retirado para o Morro Botucaraí, ou para lá fugira, perseguido pela polícia. Mesmo assim, tropas foram enviadas para capturá-lo no Botucaraí e consumar sua deportação.

A testemunha Felicíssimo presenciou o momento em que o eremita era conduzido sob custódia:


Ao embarcar no vapor que me levaria a Porto Alegre, vi chegar o Monge escoltado por dois ordenanças, atendendo às ordens do presidente Andréia. Ao aportar na capital, ele foi recolhido ao Quartel da Polícia, onde permaneceu detido até a partida do navio para o Rio de Janeiro. Embarcou recomendado por Andréia ao Ministro da Justiça, que o encaminhou ao Chefe de Polícia da Corte com recomendações especiais. Posteriormente, li o relatório do Chefe de Polícia informando ao Ministro que o Monge João Maria de Agostini fixara residência na rua do Catete, n.º 13, sob a proibição expressa de realizar pregações ou praticar curas.


Com essa deportação, encerrava-se a passagem de João Maria de Agostini pelo Rio Grande do Sul. No entanto, como destacou João da Silva Belém, “ele se foi, mas a sua obra ficou”.

De fato, a devoção e as festividades em honra a Santo Antão Abade no Campestre mantiveram-se vivas ao longo das décadas. Ainda que o tempo possa ter atenuado a memória direta da figura do Monge entre os locais, a fé na fonte permanece viva e a crença nos prodígios daquelas águas atravessou gerações.

Não se sabe ao certo quanto tempo o Monge permaneceu no Rio de Janeiro após ser deportado. É provável que tenha ficado pouco tempo na capital imperial e retornado ao seu abrigo em Sorocaba, no retiro da Pedra Santa. Ali, teria voltado ao convívio discreto com os sitiantes e operários da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em absoluto silêncio sobre o insucesso de sua missão no sul. Tampouco se conhece a duração dessa nova permanência em São Paulo, pois já no início da década de 1850 sua presença é registrada no Paraná. Talvez, pelo fato de ter sido preso, não desejou mais falar no assunto “Santo Antão”.

É provável, embora falte documentação definitiva, que em 1850 João Maria de Agostini já tivesse empreendido viagem rumo ao sul aproveitando a rota das tropas. O fato é que ele se instalou nas proximidades da cidade da Lapa (então conhecida como Vila do Príncipe ou Capão Alto), escolhendo uma gruta para se abrigar, tal como fizera antes em Sorocaba e no Botucaraí. Sua estada na região, ainda que não prolongada, foi suficiente para torná-lo uma figura lendária. Os moradores da vila logo passaram a frequentar o paredão de pedras ao leste da cidade em busca de conselhos e da cura de males antigos e rebeldes.

Tudo indica que a população soube de sua presença no local, hoje conhecido como Gruta do Monge, após ouvi-lo pregar na Igreja Matriz da cidade. Em artigo publicado no jornal “O Estado do Paraná”, o padre João Augusto Sobrinho resgatou um trecho do Livro do Tombo da Matriz (n.º 4, fls. 92) a respeito do local:


Em um lugar chamado Monge, a cerca de três quartos de légua da cidade, encontra-se uma gruta no alto da Lapa com uma cruz e uma fonte, ambas muito veneradas pelo povo. Entre os anos de 1840 e 1850, residiu ali por pouco tempo um monge que provavelmente era sacerdote, pois consta que, com autorização do então vigário, Pe. Luís de Carvalho, pregou na Matriz. O local nunca foi benzido.


O padre Luís de Carvalho foi vigário da Lapa entre 1806 e sua morte, em 1853. Se o pároco permitiu que o eremita se dirigisse aos fiéis no altar ao fim das missas, como já fizera o Padre Antônio Dias de Arruda em Sorocaba, a pregação ocorreu antes de 1853.

É um fato curioso: embora mantivesse absoluto sigilo sobre seu passado, João Maria possuía traços que conquistavam imediatamente a confiança do clero. Em Sorocaba e na Lapa, os vigários autorizaram suas pregações públicas; no Rio Grande do Sul, o próprio Arcipreste ou Vigário Geral permitiu que ele buscasse a imagem de Santo Antão na região das Antigas Missões para instituir a devoção local. Se fosse um mero impostor ou um agitador fanático, a hierarquia católica não teria concedido tais licenças. Embora não se possa afirmar com certeza que era um padre suspenso cumprindo penitência, sua condição de membro legítimo da Igreja foi reconhecida por várias autoridades eclesiásticas da época. É bastante plausível a tese de que pertencia à ordem dos Eremitas de Santo Agostinho.

Na Lapa, João Maria de Agostini fez seu pouso em uma reentrância rochosa que mal abrigava um homem das intempéries, bem ao lado de um filete de água fresca que brotava da rocha. Ali, a população o encontrava frequentemente de joelhos, rezando diante de um rústico cruzeiro erguido por ele mesmo.

Como no Campestre, o Monge costumava receitar a água da nascente para todas as enfermidades. As notícias de curas e alívios alcançados com aquela água, que não possuía qualidades medicinais além de sua própria pureza, espalharam-se rapidamente, atraindo um número crescente de devotos à pedreira.

A tradição oral preservada na Lapa confirma que João Maria de Agostini mantinha severos hábitos. Não aceitava doações em dinheiro ou refeições elaboradas, recebendo apenas pequenas ofertas de frutas e leite; o que sobrava era imediatamente distribuído aos necessitados. À noite, no silêncio da serra, entoava salmos e cantos sacros. Sua voz, amplificada pela acústica natural das rochas, ecoava pelas encostas até a cidade, comovendo os moradores que o escutavam de longe.

O Visconde de Taunay, ao visitar o local em fevereiro de 1886 enquanto exercia a presidência da Província do Paraná, deixou o seguinte registro sobre o sítio histórico:


Da Pedra Partida fui à Gruta do Monge, local de romaria durante a Semana Santa para os moradores dos arredores, pois ali viveu por algum tempo, por volta de 1842, um velho padre, ou tido como tal, chamado Agostinho Maria. Como testemunho da devoção popular, veem-se ali quatro ou cinco cruzes rústicas fincadas na rocha viva, cercadas de modestos ex-votos e velas de cera bruta que as abelhas vão desfazendo. O abrigo nem sequer é uma gruta verdadeira, mas um simples ressalto na rocha coberto por uma laje saliente que funciona como alpendre; o pobre anacoreta tinha de suportar fortes temporais quando a chuva batia contra aquele refúgio desprotegido.”


A descrição de Taunay é precisa. Aquele ressalto rochoso enegrecido pelo derramamento de velas, onde hoje se encontra um oratório com imagens de Santo Antônio, da Virgem Maria e o retrato do Monge, era a “cama” sobre a qual o eremita descansava o corpo cansado.

Não há confirmação documental sobre a data exata de 1842 mencionada por Taunay; é possível que o visconde tenha obtido a informação deste ano a partir da tradição oral lapeana. Se a informação estivesse correta, indicaria que a chegada de João Maria ao sul teria ocorrido em uma data ainda mais recuada, anterior à sua viagem ao norte do país.

Contudo, um depoimento relevante recolhido na Lapa junto ao Sr. Joaquim Borges da Silveira (conhecido como Joaquim Tristão, morador respeitado e lúcido aos 85 anos) traz novos elementos sobre o itinerário do peregrino.

Segundo Joaquim Tristão, o Monge chegou à Lapa em 1845, vindo a pé de São Paulo. Ele pediu pouso na Fazenda Santa Clara, de propriedade de seus familiares, declarando que vinha da cidade paulista de Tatuí. Na manhã seguinte, seguiu viagem acompanhado por um parente da família. O relato é acompanhado por uma lenda local: cedeu-se a João Maria um cavalo manco para levá-lo até a vila e, ao retornar à fazenda, o animal regressara completamente curado.

Após uma estada na gruta, João Maria seguiu rumo ao sul acompanhado por Tristão Correia da Rosa, parente do informante. Como gesto de despedida, o Monge presenteou Tristão com uma chocolateira de cobre batido e levemente amassada, peça histórica que a família conservou por gerações.

O depoimento do senhor Joaquim reforça que o Monge costumava ser monitorado pelas autoridades por receitar remédios caseiros à base de ervas, e confirma que as cruzes erguidas por João Maria de Agostini eram invariavelmente esculpidas em madeira de cedro.

A informação trazida pelo morador de que o eremita vinha de Tatuí (cidade vizinha a Sorocaba) é valiosa: ela conecta com precisão o peregrino da Lapa à figura que habitara a Pedra Santa em São Paulo. Se a data fornecida por esse depoimento estiver correta, a passagem de João Maria pelo Paraná teria antecedido sua ida ao Rio Grande do Sul, indicando que sua jornada pelas Missões ocorreu após uma primeira travessia pelos sertões paranaenses e catarinenses.

De qualquer forma, no ano de 1851, João Maria de Agostini alcançava a travessia do Registro do Rio Negro. Assim, após sua estada no Campestre e seu retorno a Sorocaba, o Monge voltou à Lapa e seguiu em direção ao rio que divide os atuais municípios de Rio Negro (no Paraná) e Mafra (em Santa Catarina), conforme preservado pela tradição local.

Em busca de um refúgio menos exposto à curiosidade dos visitantes, que se tornavam frequentes na margem paranaense, já regularmente habitada, atravessou o rio e instalou-se no lado catarinense. Fiel ao seu estilo de vida austero, recusou a hospedagem oferecida pelos moradores da região e, na ausência de uma gruta natural, abrigou-se sob a copa das árvores. Mesmo ali, acabou procurado pelo povo em busca de conselhos e orações.

O historiador Hermelino de Leão relata que a região do Rio Negro havia sido devastada por uma epidemia de varíola trazida por soldados durante a Revolução Farroupilha, surto que deixou cerca de duas mil vítimas nos arredores.


O pavor da peste ainda estava muito vivo na memória de todos. É natural supor que os colonos e moradores pedissem ao eremita proteção contra um novo flagelo. O Monge recomendou então que fabricassem 19 cruzes e as erguessem em linha reta, com distâncias iguais entre si, desde a porta da capela até a margem do rio.


Atendendo às orientações de João Maria de Agostini, as cruzes foram instaladas em 30 de junho de 1851. Eram esculpidas em madeira nobre e mediam cerca de 30 palmos de altura, estendendo-se do templo até a barranca do rio.

Anos mais tarde, o tenente Francisco Xavier de Assis considerou que os monumentos atrapalhavam a passagem das tropas e ordenou sua remoção. Os moradores locais recolheram as cruzes e as guardaram em suas casas até que o tempo as consumisse. Apenas uma foi preservada, a que ficava exatamente em frente à capela, tornando-se a histórica Cruz da Cidade de Mafra.

Embora o número de 19 cruzes divirta do padrão das estações da Via Sacra observado em Araçoiaba e no Campestre, nota-se o mesmo padrão de liderança religiosa e comunitária que marcou suas passagens anteriores.

A duração exata da estada do Monge na região de Mafra permanece desconhecida, assim como o itinerário que seguiu a partir dali. Se retornou à Lapa ou se embrenhou pelas matas em direção a Lages continua sendo um mistério sem resposta, a exemplo de tantos outros capítulos da vida desse singular peregrino.

O político e historiador Otacílio Vieira da Costa estimava que, por volta de 1862, fora erguido na cidade de Lages o tradicional cruzeiro do Monge.

O autor descreve assim a chegada do místico à região serrana de Santa Catarina:


E um dia, como uma aparição surgida da própria mata, despontava um velho de barbas crescidas, pés surrados em alpercatas de couro cru, barrete de pele de gato-do-mato na cabeça, sacola às costas, um antigo livro de orações e cajado à mão, curvado pelo peso dos anos e das longas marchas. Não pernoitava dentro das casas, recusava colchão e travesseiro e, para alimentar-se, apenas cozinhava algumas ervas.”


Sobre a construção do monumento no alto da serra, Otacílio Costa acrescenta:


Ali, no alto do Morro da Cruz, aquele bom velho de renúncia impressionante a todos os atrativos do mundo convidou o povo a erguer uma cruz, como símbolo de fé e marco de sua passagem por estes sertões inacessíveis. Dias depois, o monumento estava de pé. A madeira fora retirada das margens do rio Cará, trabalhada com ferramentas rústicas, quase exclusivamente com o machado. Com a madeira pronta, percebeu-se que os braços da cruz não se encaixavam perfeitamente, sendo necessários um ou dois cravos grandes de ferro. Onde encontrá-los naquela época, em que todo prego precisava ser forjado artesanalmente por um ferreiro? O velho Monge então se concentrou, apontou para um galpão aos fundos de uma casa na Rua Direita (atual Rua 15 de Novembro) e disse: 'Ide lá. Encontrareis cavalos selados e alguns homens jogando. Entrai, passai a mão sobre a viga mestra ao fundo e ali encontrareis um grande cravo.' Os homens foram, encontraram o objeto conforme a indicação e voltaram pressurosos para fixar as traves da cruz.”


Despontava, também ali, o elemento lendário. Raramente havia milagre onde a intuição e a observação atenta do eremita haviam agido. No galpão de uma vila sertaneja, polo de uma região pastoril, era previsível que, havendo cavalos amarrados à porta, houvesse homens reunidos ao jogo. Da mesma forma, nas vigas mestras daqueles galpões, costumava haver cravos cravados para pendurar roupas e arreios de montaria. Tais detalhes, por serem cotidianos demais, passavam despercebidos aos moradores locais, mas não ao olhar atento do forasteiro observador. É justamente assim que nascem as lendas, e, com frequência, as mais belas narrativas preservadas pela tradição popular.

Não existem registros, anotações ou documentos que comprovem a passagem ou os feitos desse andarilho pela região de Curitibanos. Apesar disso, seu nome tornou-se amplamente conhecido e difundido no local, chegando a ser confundido com o de seu sucessor, que surgiria apenas por volta de 1890.

É sabido que as palavras e os ensinamentos dos monges andarilhos foram o estopim para a Guerra do Contestado, conflito que ocorreu entre os anos de 1912 e 1916.

Depois dos feitos no município de Lages, o monge João Maria de Agostini regressou a Sorocaba. Voltou ao seu antigo abrigo nas matas da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, na época em que a instituição era dirigida pelo coronel Doutor Joaquim de Sousa Mursa (1865-1889). Ali viveu por mais algum tempo, dedicado às suas orações e devoções, até desaparecer para sempre, por volta de 1865, segundo o historiador Aloísio de Almeida, ou em 1870, conforme João Lourenço Rodrigues.

Sobre o seu fim, surgiram diversas versões ao longo dos anos. Uma delas sugere que ele teria morrido na própria gruta, atacado por um animal selvagem ou por algum criminoso. Essa hipótese baseou-se em um bilhete encontrado pelo pesquisador João Graciano de Oliveira no Arquivo da Fábrica de Ferro, escrito pelo administrador Costa Passos ao diretor Mursa. O documento comunicava o desaparecimento do eremita e o achado de marcas de sangue nas tábuas que serviam de leito na caverna. Essa versão, veiculada pelo eminente historiador e cônego Luís Castanho de Almeida em 1942, acabou descartada pelo próprio autor, embora ele não duvidasse da autenticidade do bilhete. Afinal, se o monge tivesse sido assassinado ou vitimado por uma fera, seriam encontrados outros vestígios no local, como restos mortais, peças de vestuário ou seus parcos pertences.

Para o sacerdote e historiador, o abandono da gruta de Sorocaba não significava necessariamente a morte de João Maria de Agostini, que poderia ter ocorrido muito tempo depois. Aloísio de Almeida retificou estudos anteriores e compartilhou novas hipóteses. Ele passou a acreditar que o monge permaneceu em Sorocaba até cerca de 1870, rumando em seguida para os sertões de Araraquara, onde teria falecido.

Embora o local e a data exatos permaneçam incertos, o historiador conhecia relatos que falavam do falecimento de um eremita “ancião e inofensivo” em 1906 ou 1907. Ele recebeu também a informação de que a morte teria ocorrido no Morro Pelado (atual município de Itirapina, então pertencente a São Carlos, a caminho de Araraquara), antes de 1889.

Antes dessa travessia, João Maria teria passado por Tanabi (à época, povoado de Jataí), onde pernoitou ao lado de um cruzeiro próximo à casa de um senhor conhecido como “Velho Casemiro”, mantendo sua regra rigorosa de recusar hospedagem e refeições caseiras.

A versão de que o Monge teria morrido em Araraquara por volta de 1906, quando teria mais de cem anos, foi veiculada pelo historiador Hemetério Veloso da Silveira. O próprio autor, contudo, admitia não ter certeza absoluta de que o falecido era o mesmo homem, notando apenas que os jornais da época noticiaram o falecimento de um eremita com o mesmo nome.

Embora não seja impossível, essa hipótese apresenta uma fragilidade evidente: se João Maria de Agostini deixou Sorocaba por volta de 1870, seria improvável que passasse mais de três décadas na região de Araraquara sem deixar rastros significativos. Em locais como Sorocaba, a Lapa e o Campestre, sua presença marcou profundamente a memória coletiva através de curas e da erupção de cruzeiros. Em Araraquara, contudo, as buscas por relatos ou tradições orais nada revelaram.

A data aproximada de sua saída de Sorocaba, por outro lado, parece segura. Aloísio de Almeida toma como marco o relato do futuro bispo Dom Frei Vital Maria de Oliveira: quando ainda era professor no Seminário de São Paulo, entre 1871 e 1872, o religioso visitou o refúgio do Ipanema e constatou que o eremita já não habitava o local.

Outra narrativa singular foi registrada, com devidas reservas, pelo padre Geraldo J. Pauwels ao final de seu estudo sobre o fanatismo no sertão brasileiro, publicado em 1928. O sacerdote transcreveu a carta que recebera de um morador do povoado de Tacuru, no Chaco paraguaio:


Acabo de receber do Povoado de Tacuru, no Chaco Paraguaio, uma carta assinada por Dom Juan Sentú Gonzales, comunicando que, em 12 de março deste ano (1928), às margens do Rio Pilcomayo, faleceu o mui santo João Maria de Agostinho, na avançada idade de 115 anos. Conservou a lucidez até o último instante e deixou a seguinte mensagem final: 'Dizei aos povos do sul do Brasil que não se esqueçam dos conselhos que lhes dei; que sigam os caminhos de Deus, plantem o trigo, a mandioca e cultivem as abelhas, pois não está distante a era de misérias, pestes e doenças, como Deus tem avisado nos grandes desastres, tremores de terra e incêndios. O Brasil está destinado a ser o condutor dos povos após a hegemonia da raça eslava; será o celeiro do mundo e distribuirá o pão que alimenta o corpo e a ideia que fortalece o espírito. Deus me chamou para junto de Si. Somente daqui a 150 anos surgirá um novo profeta para consolar os netos dos netos daqueles que me veneram. Antes disso, surgirão falsos profetas pregando o morticínio e as guerras, fugi deles como quem foge da lepra, pois um Deus de justiça e misericórdia nunca fomentará o derramamento de sangue entre suas criaturas.'"


Apesar do tom profético e impressionante da mensagem, não há elementos históricos sólidos que sustentem a veracidade desse relato paraguaio.

Em verdade, o homem que surgira de forma misteriosa no Brasil, mantendo em segredo absoluto as origens de seu passado, desapareceu no mesmo ar de mistério. Onde, como e quando morreu permanece uma incógnita, da mesma forma que muitos de seus itinerários pelos sertões do país.

Mas passou sem praticar o mal. Pelo contrário: pregou a fé, socorreu os aflitos e dividiu o pouco que recebia com os mais necessitados. Para suas necessidades pessoais, quase nada era preciso, pois alimentava-se essencialmente da prece. Jamais reagiu com violência, mesmo quando perseguido por autoridades; humilde e submisso, aceitou as incompreensões da época, recolhendo-se à solidão assim que as multidões começavam a cercá-lo.

Em uma carta esclarecedora, o cônego e historiador Aloísio de Almeida definiu o eremita com precisão:


João Maria de Agostini foi um eremita à maneira dos antigos: vivia em rigorosa penitência, raramente descia aos povoados e jamais realizava funções sacramentais reservadas aos sacerdotes ordenados."


Aparentando envelhecimento precoce já aos 40 anos, é possível que o estilo de vida sóbrio e ao ar livre tenha permitido ao eremita alcançar uma idade avançada. No entanto, o paradeiro final de seus restos mortais permaneceu desconhecido, o que acabou evitando que seus ossos fossem transformados em relíquias ou objeto de venerações desviadas.

Ainda assim, como costuma ocorrer com figuras extraordinárias, João Maria de Agostini não pôde conter a criação do imaginário popular: o povo e o tempo encarregaram-se de transformar sua caminhada em lenda.



Referências para a produção do texto:


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CABRAL, Oswaldo R. João Maria: interpretação da campanha do Contestado. Ed. il. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1960.


CASTILLO DE LUCAS, Antonio. San Antón: hagiografía folklórico-médica. Douro-Litoral, Porto, 1955. 


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DA LAPA - Verdades de Arrepiar. Lapa/PR, 22 jun. 1956. 


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KARSBURG, Alexandre de Oliveira. A trajetória de um eremita peregrino na América Católica do século XIX. Debates do NER, Porto Alegre, ano 15, n. 25, p. 17-71, jan./jun. 2014. 


LEÃO, Hermelino de. A Cruz Histórica da Cidade de Mafra. In: OLIVERO, Mário F. (org.). Centenário da Colonização Alemã: Rio Negro-Mafra. [S. l.]: Mário F. Olivero, 1929. p. 129-135. 


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PAUWELS, Geraldo J. (Pe.). Contribuição para o estudo do fanatismo no sertão sul-brasileiro. [S. l.: s. n.], 1928.


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TAUNAY, Visconde de (Alfredo d'Escragnolle). Céus e terras do Brasil. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, [s. d.]. p. 170.


VELOSO, Hemetério José. As missões Orientais e seus antigos domínios. Tip. da Livraria Universal, Porto Alegre/RS, 1910.