Texto de Antonio Carlos Popinhaki
Aos 17 anos, respondendo ao chamado religioso, deixou sua terra natal e ingressou no Seminário de Garnstock, na Bélgica, em 1932. Quatro anos depois, em 25 de abril de 1936, desembarcou no Brasil, um país que ele abraçaria não apenas como campo de missão, mas como sua nova pátria. Sua formação inicial no Seminário São Luís de Tolosa, em Rio Negro (PR), foi o prelúdio de sua total imersão na espiritualidade franciscana. Em 18 de dezembro de 1937, em Rodeio (SC), vestiu o hábito franciscano e deu início ao seu noviciado, fazendo sua primeira profissão de votos simples exatamente um ano depois. Após intensos anos de estudo, dedicando-se à Filosofia em Rodeio e Curitiba e à Teologia em Petrópolis (RJ), comprometeu-se perpetuamente com a Ordem em 21 de dezembro de 1941. Sua ordenação presbiteral, em 28 de novembro de 1943, abriu as portas para mais de seis décadas de um ministério sacerdotal fecundo e multifacetado.
Sua
missão se desdobrou, inicialmente, nos campos da educação e da formação. Atuou
como professor nos seminários franciscanos de Guaratinguetá (SP) e Rio Negro
(PR), moldando vocações. Posteriormente, levou seu talento pedagógico e sua
serena autoridade para colégios em Blumenau e Lages (SC), onde exerceu funções
de prefeito e diretor, influenciando profundamente gerações de jovens
estudantes. Em Lages, esteve à frente do Colégio Diocesano. Sua vocação de serviço também o levou a atender os fiéis em
santuários de grande fervor popular, como o Convento da Penha, em Vila Velha
(ES), e a exercer o cargo de pároco e vigário em cidades como Joaçaba e
Curitibanos, em Santa Catarina.
Contudo,
foi a partir de sua mudança definitiva para Florianópolis, em fevereiro de
1974, que seu carisma franciscano encontrou seu pleno e mais duradouro raio de
ação. Nos 32 anos que passou na capital catarinense, sua figura tornou-se
familiar e querida. Inicialmente como guardião do convento e pároco, logo seu
espírito inquieto e compassivo vislumbrou necessidades concretas. Em 1976,
movido por uma fé que se traduzia em ação, embarcou em seu projeto mais
ambicioso e humanitário: a construção e manutenção do Lar São Francisco, uma
instituição dedicada ao acolhimento e amparo de idosos da Ordem Franciscana
Secular. Esta obra tornou-se o monumento mais tangível de seu amor pelos mais
frágeis. Paralelamente, fundou a SAT – Sociedade de Amparo aos Tuberculosos,
mantendo-se como seu assistente espiritual por décadas, demonstrando que sua
caridade não conhecia fronteiras nem estigmas.
Frei
Junípero foi, acima de tudo, um verdadeiro "Frade Menor". Cultivou com
intensidade singular o carisma franciscano, sendo um dos grandes entusiastas e
formadores da Ordem Franciscana Secular no Sul do Brasil. Pregador de retiros,
conferencista, professor, confessor e orientador espiritual, sua influência
estendeu-se muito além dos muros do convento. Era pela simplicidade de seu
trato, por sua bondade sempre acessível e por uma alegria contagiante,
profundamente enraizada em sua fé, que ele marcava indelévelmente todos que com
ele conviviam. Em reconhecimento a uma vida inteiramente doada à comunidade, a
Assembleia Legislativa de Santa Catarina concedeu-lhe, em 19 de outubro de
2004, o título de Cidadão Catarinense, uma honra que recebeu já em cadeira de
rodas, cercado pelo carinho do povo que tanto amara.
Os
últimos capítulos de sua longa jornada terrestre iniciaram-se com uma queda em
seu quarto no final de maio de 2006. A fratura do fêmur o levou ao Hospital
Celso Ramos, onde foi operado. Após um período de altos e baixos, recebeu alta
no dia 14 de junho, retornando ao convento. Buscando melhor assistência, foi
transferido para o Lar São Francisco, sua própria obra, na tarde do dia 16. Na
manhã seguinte, entrou em estado de semi-coma. Cercado pelo cuidado de seus
confrades, recebeu a unção dos enfermos das mãos de Frei Gamaliel e faleceu em
paz às 19h30 da sexta-feira, dia 16 de junho de 2006. Seu corpo foi sepultado
no Cemitério Municipal Itacorubi, após uma missa exequial celebrada pelo
arcebispo Dom Murilo Krieger.
A
vida de Frei Junípero Beier foi um dom para a Igreja e para a sociedade. Sua
existência, pautada pela "limpidez de sua consagração franciscana e
ministerial", como bem se registrou, enriqueceu a Ordem, a Província e
inúmeras vidas pessoais. Ele partiu deixando não apenas um legado de obras
institucionais, mas, principalmente, a memória viva de um homem bom, um
franciscano autêntico cuja maior pregação foi o exemplo silencioso de uma vida
inteiramente entregue ao serviço de Deus e dos irmãos.
Referências
para o texto:
Informações da página dos Franciscanos no Brasil
