quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Frei Junípero Beier

Texto de Antonio Carlos Popinhaki

 Frei Junípero Beier, cujo nome de batismo era August Paul Beier, nasceu em 8 de dezembro de 1914, em Hamburgo, Alemanha, em um continente à beira da Primeira Guerra Mundial. Sua trajetória, no entanto, encontraria seu sentido e plenitude do outro lado do Atlântico, no Brasil, onde se tornaria um ícone de dedicação franciscana, um mestre dedicado e um pai para os mais necessitados. Sua vida de 92 anos foi um testemunho vivo do carisma de São Francisco de Assis, marcada pela alegria serena, uma bondade irradiante e um incansável zelo apostólico.

Aos 17 anos, respondendo ao chamado religioso, deixou sua terra natal e ingressou no Seminário de Garnstock, na Bélgica, em 1932. Quatro anos depois, em 25 de abril de 1936, desembarcou no Brasil, um país que ele abraçaria não apenas como campo de missão, mas como sua nova pátria. Sua formação inicial no Seminário São Luís de Tolosa, em Rio Negro (PR), foi o prelúdio de sua total imersão na espiritualidade franciscana. Em 18 de dezembro de 1937, em Rodeio (SC), vestiu o hábito franciscano e deu início ao seu noviciado, fazendo sua primeira profissão de votos simples exatamente um ano depois. Após intensos anos de estudo, dedicando-se à Filosofia em Rodeio e Curitiba e à Teologia em Petrópolis (RJ), comprometeu-se perpetuamente com a Ordem em 21 de dezembro de 1941. Sua ordenação presbiteral, em 28 de novembro de 1943, abriu as portas para mais de seis décadas de um ministério sacerdotal fecundo e multifacetado.

Sua missão se desdobrou, inicialmente, nos campos da educação e da formação. Atuou como professor nos seminários franciscanos de Guaratinguetá (SP) e Rio Negro (PR), moldando vocações. Posteriormente, levou seu talento pedagógico e sua serena autoridade para colégios em Blumenau e Lages (SC), onde exerceu funções de prefeito e diretor, influenciando profundamente gerações de jovens estudantes. Em Lages, esteve à frente do Colégio Diocesano. Sua vocação de serviço também o levou a atender os fiéis em santuários de grande fervor popular, como o Convento da Penha, em Vila Velha (ES), e a exercer o cargo de pároco e vigário em cidades como Joaçaba e Curitibanos, em Santa Catarina.

Contudo, foi a partir de sua mudança definitiva para Florianópolis, em fevereiro de 1974, que seu carisma franciscano encontrou seu pleno e mais duradouro raio de ação. Nos 32 anos que passou na capital catarinense, sua figura tornou-se familiar e querida. Inicialmente como guardião do convento e pároco, logo seu espírito inquieto e compassivo vislumbrou necessidades concretas. Em 1976, movido por uma fé que se traduzia em ação, embarcou em seu projeto mais ambicioso e humanitário: a construção e manutenção do Lar São Francisco, uma instituição dedicada ao acolhimento e amparo de idosos da Ordem Franciscana Secular. Esta obra tornou-se o monumento mais tangível de seu amor pelos mais frágeis. Paralelamente, fundou a SAT – Sociedade de Amparo aos Tuberculosos, mantendo-se como seu assistente espiritual por décadas, demonstrando que sua caridade não conhecia fronteiras nem estigmas.

Frei Junípero foi, acima de tudo, um verdadeiro "Frade Menor". Cultivou com intensidade singular o carisma franciscano, sendo um dos grandes entusiastas e formadores da Ordem Franciscana Secular no Sul do Brasil. Pregador de retiros, conferencista, professor, confessor e orientador espiritual, sua influência estendeu-se muito além dos muros do convento. Era pela simplicidade de seu trato, por sua bondade sempre acessível e por uma alegria contagiante, profundamente enraizada em sua fé, que ele marcava indelévelmente todos que com ele conviviam. Em reconhecimento a uma vida inteiramente doada à comunidade, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina concedeu-lhe, em 19 de outubro de 2004, o título de Cidadão Catarinense, uma honra que recebeu já em cadeira de rodas, cercado pelo carinho do povo que tanto amara.

Os últimos capítulos de sua longa jornada terrestre iniciaram-se com uma queda em seu quarto no final de maio de 2006. A fratura do fêmur o levou ao Hospital Celso Ramos, onde foi operado. Após um período de altos e baixos, recebeu alta no dia 14 de junho, retornando ao convento. Buscando melhor assistência, foi transferido para o Lar São Francisco, sua própria obra, na tarde do dia 16. Na manhã seguinte, entrou em estado de semi-coma. Cercado pelo cuidado de seus confrades, recebeu a unção dos enfermos das mãos de Frei Gamaliel e faleceu em paz às 19h30 da sexta-feira, dia 16 de junho de 2006. Seu corpo foi sepultado no Cemitério Municipal Itacorubi, após uma missa exequial celebrada pelo arcebispo Dom Murilo Krieger.

A vida de Frei Junípero Beier foi um dom para a Igreja e para a sociedade. Sua existência, pautada pela "limpidez de sua consagração franciscana e ministerial", como bem se registrou, enriqueceu a Ordem, a Província e inúmeras vidas pessoais. Ele partiu deixando não apenas um legado de obras institucionais, mas, principalmente, a memória viva de um homem bom, um franciscano autêntico cuja maior pregação foi o exemplo silencioso de uma vida inteiramente entregue ao serviço de Deus e dos irmãos.

 

Referências para o texto:

Informações da página dos Franciscanos no Brasil