quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Aldair Goeten de Moraes



Texto de Antonio Carlos Popinhaki


Aldair Goeten de Moraes nasceu em Curitibanos, Santa Catarina, em 13 de agosto de 1945, filho de Osvaldo Goetten e Maria Edir Goetten de Moraes. Desde a infância, foi envolvido pelas narrativas do passado, ouvindo histórias contadas por sua bisavó, Francelina Granemann, e por seu avô materno, Lino Moraes da Silva, que foi tropeiro. Foi escutando essas histórias sobre os tempos dos tropeiros e da época do Contestado que despertou nele um interesse profundo pela história regional. Aldair era uma criança extremamente curiosa; quando perguntava muito, os membros mais velhos da família o chamavam de “espicula”. Seu avô materno, em especial, dava-lhe toda a atenção e influenciou significativamente sua juventude. Seu avô paterno, Carlos Goetten, ao contrário, era descrito como “brabo” e mais distante.

A infância de Aldair foi marcada por intensa convivência com a natureza e com as tradições rurais. Seu pai residia no Marombas, atualmente um distrito do município de Brunópolis, mas Aldair se criou na Lagoinha, onde passava a maior parte do tempo com os avós. Aos 7 anos, foi para localidade Marombas, onde estudou até o 3.º ano primário. Posteriormente, veio estudar no Colégio Santa Teresinha, em Curitibanos, percorrendo diariamente a cavalo o trajeto da Lagoinha, numa viagem de 18 quilômetros de ida e volta. Depois, estudou no Colégio Casimiro de Abreu. Quando criança, Aldair gostava de animais, montava em terneiros e brincava com os leitões, e as lides do sítio sempre foram encaradas por ele como diversão e não como trabalho. Mais tarde, enquanto crescia, acompanhava com entusiasmo os comícios políticos, demonstrando interesse pela política desde cedo. Em 1955, na eleição de Juscelino Kubitschek, lembra-se de acompanhar políticos vindos de fora e de presenciar a inauguração da ponte sobre o Rio Marombas, ocasião em que o tradicionalista Gildo de Freitas marcou presença. Aldair recorda nitidamente que Gildo usava uma bombacha azul com botões brancos nas laterais.

Durante sua juventude, Aldair enfrentou as dificuldades da vida no campo com determinação. Quando vinha da Lagoinha para assistir às aulas em Curitibanos, trazia verduras e leite para vender, comercializando seus produtos na antiga Rua dos Pobres, no Bairro São José, onde, segundo ele, nunca perdeu nenhum centavo. Sempre morou e trabalhou no sítio, mas ao longo de sua vida profissional exerceu diversas atividades. Trabalhou por pouco tempo na empresa Molas Mosquito, tentou brevemente a carreira de caminhoneiro, mas acabou desistindo. Em seguida, atuou no Supermercado Myatã (cuja razão social na época era S.A. Mafessoni, com matriz em Caçador/SC), trabalhando nas duas lojas da rede. Na gestão do prefeito Ulysses Gaboardi Filho, dona Maria Batista Nercolini, responsável pelo Museu Histórico Antonio Granemann de Souza, ao se aposentar e afastar-se de suas funções que exercia desde a inauguração em 7 de maio de 1973, deu a oportunidade para que Aldair se aproximasse do ambiente museológico. Naquela época, ele tinha um bom salário no supermercado, mas a inflação acabou corroendo seu poder aquisitivo, tornando seus vencimentos defasados. Foi então que, em março de 1989, com o salário já achatado, Aldair aceitou o convite para trabalhar no museu, sendo o acerto do salário realizado diretamente com dona Tânia Gava Gaboardi. Esse momento marcou o início de sua trajetória definitiva como guardião da memória curitibanense.

Depois de um longo tempo afastado dos bancos escolares, Aldair estudou no Centro de Educação de Jovens e Adultos — CEJA, fazendo uma espécie de recapitulação do Primário e Ensino Médio com a finalidade de fazer o vestibular e cursar História na Universidade do Contestado — UnC. Sua trajetória como pesquisador é marcada por uma vasta produção intelectual, com participações em livros, documentários e programas de televisão, sempre voltados à memória e à história de Curitibanos e do Planalto Catarinense. Seu método de pesquisa era singular e profundamente humano: saía com um gravador de fita cassete para entrevistar pessoas mais velhas, como ex-jagunços, tropeiros e moradores antigos, como o famoso “Seu Pereira”, que vendia picolés na frente do Colégio Santa Teresinha, registrando depoimentos que se tornaram preciosos para a compreensão da história local.

Entre suas publicações, destacam-se obras como “A influência do Quadrante Patrulhense no Planalto Catarinense”, artigo incorporado no livro Raízes de Santo Antônio da Patrulha e Caraá”; “Curitibanos e o caminho das tropas – Santa Catarina interiorizando a trajetória”; “O negro no caminho das tropas”, artigo incorporado no livro “Bom Jesus e o tropeirismo no Cone Sul”; “Cidades tropeiras de Santa Catarina” e “Tropeiros que fizeram história em Curitibanos”, artigo incorporado no livro “Bom Jesus na rota do tropeirismo no Cone Sul”. Também foi autor da cartilha em parceria com o professor Enori Pozzo (in memorian), intitulada “A história de Curitibanos vista por Picanço”, e, em 2008, publicou a cartilha “Fatos Importantes da História de Curitibanos”. Em 2024, foi coautor do livro “A Saga dos Tropeiros em Curitibanos”. Aldair colaborou com a Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo e participou de 14 programas de TV sobre a Guerra do Contestado, dos documentários “100 anos de história oral” e resgatou vídeos antigos como “Curitibanos 1949 - 1970”. Também proferiu palestra sobre o mesmo tema (Contestado) no Senado Federal, em Brasília. Em 2012, o Museu Histórico Antonio Granemann de Souza solicitou sua presença para ministrar palestras sobre o Centenário do Contestado.

Apesar de seu profundo conhecimento histórico regional, Aldair sempre fez questão de não ser chamado de historiador, preferindo firmemente o título de pesquisador. Ele sempre deixou isso claro a todos que o rodeavam, pois considera que sua formação e método se encaixam mais na pesquisa do que na historiografia acadêmica. Para aqueles que o conhecem, Aldair é considerado uma verdadeira enciclopédia viva, sendo descrito por amigos e admiradores como um “arquivo vivo” da memória regional, tamanho seu domínio sobre costumes, tradições, genealogias e acontecimentos do passado. As pessoas que convivem com ele, no entanto, ignoram esse pedido e o chamam de historiador, isso porque é grande a sua capacidade de discorrer sobre qualquer assunto com riqueza de detalhes e horas de conversa, sendo considerado por muitos como um verdadeiro guardião da memória curitibanense.

Aldair casou-se no dia 30 de novembro de 1968 com Maria Teresinha Almeida Goetten, com quem vive por mais de cinco décadas. Conheceu sua esposa na Farmácia Nossa Senhora das Graças, de propriedade de Heins Curt Brandes, onde Maria Teresinha trabalhava. Aldair estudou com o irmão mais velho dela, mas nunca havia conversado com ela antes, apesar de conhecê-la de vista. Numa festa do Divino, em 2 de junho de 1968, encontraram-se e, após um breve namoro, casaram-se na Igreja Matriz Imaculada Conceição de Curitibanos. Dessa união nasceram três filhos: Carlos Henrique Almeida Goetten, José Lúcio Almeida Goetten e Laline Patrícia Almeida Goetten Tortatto. No momento em que este texto foi escrito, em 2026, Aldair é avô de oito netos e também bisavô de um bisneto e uma bisneta.

Aldair Goeten de Moraes exerceu o cargo de Chefe de Turismo de Curitibanos, função em que atuou ativamente na divulgação dos pontos históricos do município. Em 2011, ele destacou publicamente que as ruas Lages, Medeiros Filho, Santa Catarina e José Goetten Sobrinho são marcos históricos por terem sido identificadas como o primitivo Caminho das Tropas, e que o ponto de parada dos antigos tropeiros ficava no local onde hoje se encontra o Parque Pouso dos Tropeiros. Além disso, Aldair costuma enumerar outros importantes sítios históricos da cidade, como o Monumento ao Tropeiro, em frente à Prefeitura; o Monumento ao Monge João Maria, no bairro Água Santa; o Capão da Mortandade, na Fazenda da Forquilha; o Museu Histórico Municipal, que guarda relíquias importantes da história do município, e a tradicional “fonte carioquinha”, tombada como patrimônio histórico.

Seu reconhecimento público veio em 23 de setembro de 2021, durante Sessão Solene na Câmara Municipal de Vereadores de Curitibanos, quando recebeu a Comenda de Mérito Curitibanense, concedida pelo Decreto Legislativo n.º 3/2021, em homenagem ao bicentenário do nascimento de Anita Garibaldi e como forma de agradecimento pelo relevante trabalho prestado ao registro histórico do município. A solenidade foi marcada por momentos de grande emoção, especialmente quando foi exibido um vídeo preparado em sua homenagem. Sua filha, Laline Patrícia, discursou emocionada, citando o filósofo irlandês Edmund Burke: “um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la”, e recordou como o pai os criou dentro do respeito e do conhecimento das origens, ensinando a importância de saber onde se vive e por quê. Ela lembrou das inúmeras entrevistas que ele fazia com idosos, sempre empolgado com as descobertas, e concluiu: “parte da história de Curitibanos foi o senhor que ajudou a resgatar".

Ao receber a honraria, Aldair, visivelmente emocionado, iniciou seu discurso citando um trecho de uma canção que falava sobre cicatrizes de batalha em vez de medalhas, e afirmou que não poderia aceitar a comenda sozinho, pois muitas pessoas colaboraram para que ele aprendesse e chegasse até ali. Em sua fala, relembrou sua infância, a influência dos antepassados, a importância do tropeirismo para a região e detalhou suas pesquisas sobre fatos históricos como a Revolução Farroupilha e o incêndio de Curitibanos em 1914, demonstrando mais uma vez a profundidade e a paixão com que dedicou sua vida ao resgate da memória local.

Seus hobbies e passatempos favoritos sempre estiveram ligados à vida no campo: o esporte preferido sempre foi andar a cavalo, e as lides do sítio sempre foram encaradas como diversão e não como trabalho em si. Aldair aprecia livros de história, sendo a leitura um de seus principais passatempos. Sua comida preferida é a carne, especialmente churrasco meio gordo. Tem como filosofia de vida as palavras de Ayrton Senna, de quem admirava a crença no trabalho e a ausência de ídolos. Gosta de viajar, embora não aprecie dirigir.

Assim, Aldair Goeten de Moraes consolidou-se como uma figura central na preservação e divulgação da história curitibanense, dedicando sua vida a resgatar e compartilhar as narrativas que compõem a identidade da região, deixando um legado imensurável para as futuras gerações. Um legado que, como ele mesmo fez questão de lembrar, não foi construído sozinho, mas com a colaboração de muitos que, como ele, acreditavam no poder da memória.



Referências para a produção do texto:


A SEMANA ON-LINE. Identidade no coração do Estado. Portal A Semana On-line, 14 de janeiro de 2011. Disponível em: https://asemanacuritibanos.com.br/curitibanos/identidade-no-coracao-do-estado-1-1623551/


CÂMARA DE VEREADORES DE CURITIBANOS. Sessão solene na Câmara de Vereadores de Curitibanos (23/09/2021). Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=STPOkxBcKnE


CRISTINE, Kelly. Sessão Solene homenageia personalidades e instituições de Curitibanos. Portal A Semana On-line, 11 de junho de 2026. Disponível em: https://asemanacuritibanos.com.br/featured/sessao-solene-homenageia-personalidades-e-instituicoes-de-curitibanos/


Informações do próprio biografado, Aldair Goeten de Moraes


LIMA, Rubiane. A Câmara de Vereadores presta homenagens. Portal A Semana On-line, 23 de setembro de 2021. Disponível em: https://asemanacuritibanos.com.br/geral/camara-de-vereadores-presta-homenagens-1-2367941/

MORAES, Aldair Goeten de. et al. A Saga dos tropeiros em Curitibanos. 1. ed. Curitibanos, SC: Ed. dos Autores, 2024.

Ofício MHAGS 02/2012 de 26 de abril de 2012, solicitando a presença para uma palestra nas dependências do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza.