terça-feira, 17 de maio de 2022

Marcos Gonçalves de Farias — "Tio Taco"


Texto de Antonio Carlos Popinhaki


Marcos Gonçalves de Farias, apelidado carinhosamente de “Tio Taco”, era homônimo e neto de outro Marcos Gonçalves de Farias, o superintendente municipal de Curitibanos do início do século XX. Ambos tinham o mesmo nome e por essa razão, podem gerar certa confusão aos pesquisadores da história curitibanense. Sendo assim, é conveniente que se use a alcunha para diferenciá-los, apesar de terem vivido em épocas diferentes e distintas.

Consta nos documentos pessoais e nos registros orais, mantidos pela família, que ele nasceu em Curitibanos, em 18 de novembro de 1922. Entretanto, há um registro de batismo de Marcos e de alguns dos seus irmãos, realizados na Igreja Católica, mais especificamente, na Paróquia São João Batista, em Campos Novos. Era filho de Altino Gonçalves de Farias e Clara de Paula Carneiro de Farias. Sua mãe morreu quando ele tinha 6 anos. A história do falecimento de Clara de Paula deu-se dessa maneira: “na noite do dia 19 de maio de 1929, ocorreu um baile no Clube Sete de Setembro, em Curitibanos. Era uma noite fria, prenunciando que o inverno seria rigoroso. Havia no interior do salão de festas, muitas famílias de curitibanenses, entre as presentes, estava Altino Gonçalves de Farias, sua esposa Clara e o filho menor, de nome Altino Farias Filho, de 15 anos. O superintendente municipal era o Tenente-Coronel da Guarda Nacional, Henrique Paes de Almeida (Júnior). Num ato de insanidade, mobilizou a polícia local para acabar com o baile. Os policiais se posicionaram, na escuridão daquela noite, na Praça da República e apontaram seus fuzis para a porta do salão do Clube Sete de Setembro. Num determinado momento, Altino Farias Filho saiu para respirar ar fresco, visto que no salão estava quente devido ao calor provocado pelos casais dançarinos. Ele estava com um “pala”, uma peça de roupa utilizada em dias e noites de frio pelas pessoas do Sul do Brasil. Atrás dele veio a sua mãe, Clara. Altino Filho, na calçada, ao lado da rua, fez menção de que iria tirar o “pala”, levantando-o, foi neste exato momento que um dos policiais que estava oculto na praça da República, disparou contra o rapazola, atingindo-o de raspão na cabeça. Clara, ao ver o filho atingido, correu para auxiliá-lo, também sendo atingida por outro disparo vindo do mesmo lugar escuro da praça. Ao som de tiros, o baile parou, Altino Gonçalves de Farias, vendo o filho e a esposa caídos na calçada, atirou a esmo para a praça, não acertando em ninguém. Entretanto, há um registro encontrado no Jornal Conciliador, edição n.º 12 daquele ano, relatando que outro homem também morreu naquele tiroteio, não revelando na matéria, o seu nome. Clara faleceu no amanhecer do dia seguinte e Altino Filho recuperou-se do ferimento a bala, vindo a falecer, tempos depois, em Lages de outras enfermidades. Seu pai (Altino Gonçalves de Farias), desgostou-se pela vida, por perder a sua esposa e filho de forma traumatizante. Precisou de tratamento médico contra dois problemas: insuficiência cardíaca e piora das funções renais. Faleceu no mesmo Hospital de Caridade da cidade de Lages, onde seu filho Altino falecera antes. A data do falecimento de Altino foi em 23 de janeiro de 1932, às duas horas da madrugada”.

Dessa forma, Marcos Gonçalves de Farias ficou órfão precocemente, foi criado pela avó paterna, e depois, pelas famílias das irmãs mais velhas. Estudou no Grupo Escolar Arcipreste Paiva, sendo um dos primeiros alunos daquele educandário desde a chegada das Irmãs da Sagrada Família em Curitibanos, no ano de 1933. Quanto à sua infância, pouco há o que acrescentar, a não ser que morou na residência do seu avô, que ficava ao lado da Igreja Católica Imaculada Conceição e certamente, brincou muito na Praça da República, que antes, conforme descrito por alguns antigos moradores, servia, inclusive, para campinho para as crianças brincarem de diversas maneiras, incluindo memoráveis peladas de futebol. Dessa forma, Marcos ganhou gosto pelo esporte, apesar de sentir-se atraído por várias modalidades esportivas, teve no futebol uma das suas maiores paixões.

O apelido foi dado pelos familiares. Antes de Marcos nascer, o casal Altino e Clara teve um filho, que recebeu o mesmo nome do avô, também Marcos. Eles chamavam a criança de “Tataco”. Infelizmente essa criança faleceu precocemente. Depois de um tempo, nasceu outro filho, o nosso biografado, que recebeu, igualmente, o nome de Marcos. Dessa vez, foi chamado carinhosamente pelos pais de “Taco” para diferenciar com aquele que falecera. Mais tarde, outras pessoas acrescentaram o “Tio” ao apelido, ficando assim, “Tio Taco”.

“Tio Taco” era uma pessoa dinâmica. Estava envolvido em praticamente quase todas as atividades ocorridas em Curitibanos. Foi um dos sócios contribuintes para a instalação do Cine Monte Castelo, na esquina das ruas Coronel Albuquerque com a Vidal Ramos. Foi um dos sócios-fundadores do Pinheiro Tênis Clube, era sócio do Clube Sete de Setembro, assíduo frequentador da Igreja Católica Imaculada Conceição e sócio-fundador do Sindicato Rural de Curitibanos.

Como citado anteriormente, era um apaixonado por esportes. No final da década dos anos de 1950 e início de 1960, Curitibanos teve um time que representou a cidade no campeonato estadual de futebol, o Independente Atlético Clube, esse time disputou o campeonato estadual de 1959 e 1962, com jogos memoráveis no “Alçapão da Baixada”, antigo estádio municipal. Não demorou muito, o Independente A. C., tornou-se rival do também time curitibanense, Flamengo Futebol Clube, que teve como um dos seus fundadores, Marcos Gonçalves de Farias, o “Tio Taco”. O Flamengo curitibanense disputou o estadual em 1960. Bem antes desses times, “Tio Taco” jogava futebol no Clube Serrano e disputou vários torneios no memorável estádio curitibanense.

Tinha uma fazenda na região da Forquilha, onde criava gado. Morava na sede urbana de Curitibanos, mas deslocava-se quase que diariamente para a fazenda, com a finalidade de trabalhar com o manuseio do gado e lides do campo. Antes, usava cavalos e carroças, depois, ainda jovem, mas casado, comprou uma motocicleta, depois uma camionete da marca Ford, ao qual chamava de “fordeco” ou “fubica”. Anos depois, trocou o “fordeco” por um Jeep Willys.

Casou-se no dia 9 de dezembro de 1944, na Igreja Católica Imaculada Conceição de Curitibanos, com a jovem Maria Lígia da Silva Machado. Ele tinha, na ocasião, 21 anos e ela, 17. Depois do casamento, a nubente passou a assinar seu nome como Maria Lígia Machado de Farias. Conhecida entre os curitibanenses, carinhosamente pelo apelido de “Tia Lili”. O casal teve três filhos: Marlene Teresinha Farias Bellotto, nascida em 16 de outubro de 1945; Marcos Antonio Machado de Farias, nascido em 10 de fevereiro de 1948 e Hélio José Machado de Farias, nascido em 12 de abril de 1950. Todos curitibanenses natos.

Marcos também trabalhou, por um pequeno período na prefeitura, na gestão de Lauro Antônio da Costa. Foi nesse tempo que começou a ser introduzido e plantado nas fazendas dos pecuaristas curitibanenses as forrageiras como aveia e azevém. Antes, os produtores tinham enormes dificuldades com suas criações, principalmente no inverno, quando os pastos secavam e o frio era intenso. 

Faleceu em 24 de dezembro de 2005, num dos leitos da Fundação Hospitalar de Curitibanos, com 83 anos. Tempos depois, através da Lei Ordinária n.º 6326/2020, de 22 de julho de 2020, o então prefeito de Curitibanos, José Antonio Guidi, denominou o prédio público, localizado na Rua Juvenal Bráulio Bacelar, no Loteamento Nova Alvorada, no Bairro São Luiz, de “Ginásio de Esportes Marcos Gonçalves de Farias”.

Marcos também recebeu da Liga Curitibanense de Futebol, uma placa, como forma de homenagem pelos seus serviços prestados ao esporte curitibanense. Na política, foi filiado do antigo PSD e do MDB.



Referências para o texto:



ALMEIDA, Coracy Pires de. Nossa Terra, Nossa Gente. Gráfica Comercial. Curitibanos/SC. Dezembro de 1968. p. 36 e 37.


Câmara Municipal de Vereadores de Curitibanos. Pasta digital referente à Lei Ordinária Municipal n.º 6326/2020


CAMPOS, Hélio. Curitibanos de outrora. Blog do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza. On-line. Disponível em: https://museuhistoricoantoniogranemanndesouza.blogspot.com/2022/02/curitibanos-de-outrora.html


Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais de Curitibanos — Certidão de óbito de Marcos Gonçalves de Farias


Conflicto em Curitibanos. Jornal Conciliador. Florianópolis, ed. n.º 12, p.3


Curitibanos — Lei Ordinária n.º 6326/2020, denomina prédio público,...


Fotografia, acervo da família de Marlene Teresinha Farias Bellotto


Informações de Marlene Teresinha Farias Bellotto.


Informações de Marcos Antônio Machado de Farias.


Informações de Ozires Farias Lemos.


Informações sobre o batismo de Marcos Gonçalves de Farias, disponível no livro de registro de batismos da Igreja Católica de Campos Novos, Paróquia São João Batista.


POPINHAKI, Antonio Carlos Popinhaki. independente Atlético Clube — Curitibanos/SC. Blog Antonio Carlos Popinhaki. on-line, disponível em: https://antoniocarlospopinhaki.blogspot.com/2021/02/independente-atletico-clube.html


POPINHAKI, Antonio Carlos Popinhaki. Altino Gonçalves de Farias. Blog Curitibanenses. On-line, disponível em: https://curitibanenses.blogspot.com/2022/04/altino-goncalves-de-farias.html


POPINHAKI, Antonio Carlos. Irmã Irene. Blog Curitibanenses. On-line, disponível em: http://curitibanenses.blogspot.com/2021/10/irma-irene.html


POPINHAKI, Antonio Carlos. Lauro Antonio da Costa. Blog Curitibanenses. On-line, disponível em: https://curitibanenses.blogspot.com/2017/11/lauro-antonio-da-costa.html


Registro de casamento de Marcos Gonçalves de Farias e Maria Lygia. Portal FamilySearch, on-line, disponível em: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-62Y9-Y3C?i=169&wc=MXYG-KNL%3A337701401%2C337701402%2C338556901&cc=2016197


URBANSKI, Cícero. História do Futebol. Independente Atlético Clube - Curitibanos/SC. On line: Disponível em: https://historiadofutebol.com/blog/?p=77951

Nenhum comentário:

Postar um comentário