Texto de Antonio Carlos Popinhaki
João Braz Peters, conhecido como Capitão Peters, nasceu em 30 de janeiro de 1938, em Mafra, Santa Catarina, e era descendente da família Peters (ou Petters), originária da aldeia de Badem, no distrito de Prüm, próximo a Trier, na Alemanha. Casou-se com Teresa de Almeida Peters, filha caçula de Edegar Ferreira de Almeida e Olga Rossa de Almeida, uma família tradicional de Curitibanos. O casal teve uma única filha, Olga Inês de Almeida Peters, que lhe deu dois netos, Alexandre e Rodrigo. A família Peters era unida e mantinha fortes laços com o campo e a vida rural, além de compartilhar um profundo amor pela música, poesia e tradições gaúchas.
João Braz Peters ingressou na Polícia Militar de Santa Catarina e destacou-se por sua dedicação e mérito intelectual. Em 14 de dezembro de 1959, foi promovido ao posto de 2.º Tenente pelo governador do estado, Heriberto Hülse, em reconhecimento à sua conclusão do Curso de Formação de Oficiais da Força Pública do Estado de São Paulo. Sua carreira foi marcada por uma atuação exemplar, culminando em sua nomeação como comandante do grupamento da Polícia Militar em Curitibanos na década de 1970.
Durante seu comando, o Capitão Peters implementou inovações significativas, como a construção da Vila Militar em Curitibanos, um projeto que beneficiou militares e suas famílias. Além disso, criou uma cadeia separada no quartel para presos considerados de menor periculosidade, oferecendo condições humanizadas, como camas confortáveis, banho quente e liberdade para circular no quartel. Essa iniciativa refletia sua visão de justiça e humanidade, mas também lhe trouxe desafios. Por defender um tratamento digno para esses presos, foi preso por dois meses no quartel da Polícia Militar de Florianópolis, um episódio que evidenciou sua integridade e coragem.
O Capitão Peters era conhecido como o “primeiro militar de esquerda do Sul do Brasil”. Na década de 1970, ele se alinhava a ideais progressistas e opunha-se ao então governador de Santa Catarina, Antônio Carlos Konder Reis da Aliança Renovadora Nacional — ARENA, e também, à oligarquia da família Bornhausen, que dominava a política do estado na época. Sua postura crítica ao governo e sua defesa dos mais humildes renderam-lhe inimizades políticas em Curitibanos.
Ele foi alvo de três transferências assinadas pelo governador Antônio Carlos Konder Reis, a pedido de um influente político local. Essas transferências foram uma forma de pressão política, mas o Capitão Peters resistiu em deixar Curitibanos, cidade que amava e onde havia construído a Vila Militar. Sua relação conturbada com o poder local também incluiu um conflito público com o então deputado estadual Wilmar Ortigari, que o acusou de torturas e prisões arbitrárias no quartel da Polícia Militar. Essas acusações, no entanto, eram contestadas pelo Capitão, que afirmava agir com justiça e integridade.
Em 1977, o Capitão Peters foi eleito vereador em Curitibanos pelo Movimento Democrático Brasileiro — MDB, para a gestão que culminou no final do ano de 1982. Nessa época, teve novas desavenças com o deputado Wilmar Ortigari, que na ocasião, tornou-se prefeito de Curitibanos, sempre por divergências políticas, o que o levou, por desgosto, a vender seus bens em Curitibanos e mudar-se para o Uruguai. Posteriormente, retornou a Santa Catarina, adquirindo uma fazenda na Coxilha Rica, na região rural de Capão Alto/SC.
Apesar de sua rigidez como militar, o Capitão Peters era uma pessoa sensível e humana. Ele amava os animais, a natureza, o campo, o mar, a música e os amigos, mas, acima de tudo, valorizava a família. Sua filha, Olga Inês descreve-o como um pai dedicado e amoroso, que a ensinou a andar de bicicleta e a apreciar as coisas simples da vida. Ele incluía os funcionários, como o capataz e sua família, nas refeições à mesa, demonstrando respeito e igualdade para com todos, independentemente de sua posição social.
O Capitão Peters também era conhecido por promover eventos que integravam a comunidade, como a tradicional Festa de São João realizada anualmente no quartel da Polícia Militar, com direito a uma enorme fogueira. A festa era voltada para soldados e suas famílias, sem a presença de autoridades, e promovia um ambiente de igualdade e confraternização. Ele acreditava na importância de valores como justiça, honestidade e respeito, e transmitiu esses princípios à sua posteridade e comunidade.
Além de sua atuação política e militar, em 1973, integrou o “Centro de Tradições Gaúchas Fronteira da Querência”, em Concórdia/SC, demonstrando seu apreço pelas tradições gaúchas e pela cultura regional.
Nos últimos anos de vida, o Capitão Peters enfrentou problemas de saúde que limitaram sua mobilidade. Mesmo debilitado, mantinha seu espírito forte e ainda montava a cavalo com a ajuda de amigos, acompanhado pela filha. Faleceu em 24 de maio de 2009, em Curitibanos/SC, e foi sepultado no Cemitério Público Municipal São Francisco de Assis, na mesma cidade. Sua morte deixou um grande vazio na família e na comunidade, mas seu legado permanece vivo.
O Capitão Peters deixou um legado de justiça, humanidade e dedicação à família e à comunidade. Sua filha, Olga Inês, expressa profundo orgulho e gratidão pelo pai, destacando seu caráter íntegro e sua influência em sua vida. Em 2014, a Câmara Municipal de Vereadores de Curitibanos homenageou-o batizando uma rua no Bairro Bom Jesus com o nome “Rua Capitão Peters”, um reconhecimento público de sua contribuição para a cidade.
João Braz Peters, o Capitão Peters, foi uma figura marcante na história de Curitibanos e da Polícia Militar de Santa Catarina. Sua vida foi guiada por valores como justiça, igualdade e respeito, e seu legado continua a inspirar aqueles que o conheceram. Sua história é um testemunho de coragem, humanidade e amor pela família e pela comunidade, características que o tornaram uma figura inesquecível para todos que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Referências para o texto:
Curitibanos — Lei Ordinária Municipal n.º 5382/2014.
Portal FamilySearch
Informações guardadas no acervo do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza de Curitibanos, SC.
Nenhum comentário:
Postar um comentário