quinta-feira, 30 de abril de 2026

João Granemann de Camargo


Texto de Antonio Carlos Popinhaki


João Granemann de Camargo nasceu em 16 de maio de 1893 em Santa Cecília, na época, território do município de Curitibanos, e também na época, grafada como “Coritibanos”, na região serrana de Santa Catarina, sendo batizado em 12 de setembro de 1894. Era filho de João Granemann (1859–1916) e Eliza Barbosa de Camargo (1861–1937), pertencendo a uma das mais influentes linhagens da região. A família Granemann, de origem alemã, chegou ao Brasil por volta de 1838 e se consolidou como grande proprietária de terras, atuante no tropeirismo e na política local, sendo fundamental na reorganização socioeconômica do período posterior à Guerra do Contestado (1912–1916), conflito que profundamente marcou o oeste catarinense.

Embora não haja registros de formação acadêmica formal em Direito, João Granemann de Camargo integrava a elite de Curitibanos, sendo descrito como fazendeiro e cidadão de “reconhecida idoneidade”. Em 21 de setembro de 1918, casou-se com Leonor de Oliveira Ribeiro (1901–1978), união da qual nasceram pelo menos catorze filhos, entre eles Juvino Granemann, Ludir Franco Granemann, Dolores Granemann, Enedina Granemann, Francisco Ribeiro Granemann, Dinarte Granemann e João Ribeiro Granemann. Sua posição social, aliada às redes de parentesco e prestígio, garantiu-lhe acesso a cargos públicos de relevo, prática comum no interior do Brasil durante a Primeira República e a Era Vargas.

Em 6 de janeiro de 1931, por decreto do General Ptolomeu de Assis Brasil, Interventor Federal no Estado de Santa Catarina, João Granemann de Camargo foi nomeado Primeiro Suplente de Juiz de Direito da Comarca de Curitibanos, devendo exercer o cargo até 31 de dezembro daquele ano. O ato oficial foi registrado, averbado e publicado nos órgãos competentes, e em 2 de fevereiro de 1931 ele pagou o selo de verba no valor de vinte mil réis e prestou o compromisso legal perante a comarca. Essa nomeação evidencia não apenas sua reputação ilibada na comunidade, mas também seu alinhamento com o novo regime getulista, que buscava consolidar apoios regionais após a Revolução de 1930.

A trajetória de João Granemann de Camargo, contudo, não foi isenta de controvérsias. Pesquisas acadêmicas sobre a história de Curitibanos indicam que, em 1915, ele figurou como réu em um processo-crime, sendo acusado, ao lado de um escrivão e outro funcionário público, de forjar uma perícia médica após o assassinato de Alfredo Alves Sampaio, morto pelo delegado local. Esse episódio insere-se nas violentas disputas políticas que marcaram a região no período pós-Contestado, refletindo a instabilidade e as tensões características da política coronelista da época. Apesar da controvérsia, sua ascensão pública não foi obstaculizada, o que demonstra a força das redes de parentesco e poder local.

João Granemann de Camargo faleceu em 2 de janeiro de 1963, na cidade de Lages, num domicílio no Morro do Posto. Contava com cerca de 69 anos. Seu legado, porém, permanece vivo na memória urbana de Curitibanos: em 23 de abril de 1997, por meio da Lei Ordinária Municipal n.º 3.187/1997, a Prefeitura Municipal denominou uma via pública no loteamento “Gralha Azul” como Rua João Granemann Camargo (antiga SD-82), homenagem que consagra sua memória como figura representativa da história política e jurídica do município. Assim, ainda que ausente das grandes narrativas nacionais, João Granemann de Camargo personifica o típico coronel interiorano da Primeira República, adaptado às transformações institucionais da Era Vargas, cuja trajetória, reconstituída por decretos, registros genealógicos, processos históricos e toponímia urbana, revela as complexas relações entre família, poder, violência e Estado no oeste catarinense.



Informações para a produção do texto:


Curitibanos — Lei Ordinária Municipal n.º 3.187/1997


Fotografia: Acervo digitalizado do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza.


MORAIS, João Felipe Alves de. O Lugar do Contestado na História do Brasil/ Márcia Janete Espig, Alexandre Assis Tomporoski, Delmir José Valentini, Paulo Pinheiro Machado, Rogério Rosa Rodrigues (organizadores) Vitória: Editora Milfontes, 2022. 586 p.: 23 cm. - p. 229.


Nomeação de João Granemann de Camargo para o cargo de Primeiro Suplente de Juiz de Direito da Comarca de Curitibanos. Documento digitalizado e parte do acervo do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza.


Registro de Óbito: Portal familysearch. On-line, disponível em: https://www.familysearch.org/pt/brasil/

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