terça-feira, 9 de junho de 2026

Helena Cecília Gröne Bossardi



Texto de Antonio Carlos Popinhaki


Helena Cecília Gröne Bossardi nasceu em 30 de maio de 1930, na cidade de Erechim, no Rio Grande do Sul, em um contexto de forte influência da imigração alemã. Era filha de Augustho Gröne, um imigrante alemão nascido em Lemgo que chegou ao Brasil em 1923 e tornou-se um importante empreendedor e montador industrial, e de Leocádia Knapp Gröne, descendente de alemães e costureira. Tendo apenas uma irmã, Helga Wilma Gröne, Helena cresceu em um ambiente familiar marcado pelo trabalho, resiliência e visão de futuro, características herdadas de seu pai, que superou as dificuldades da Primeira Guerra Mundial e da imigração para se tornar um dos pioneiros da indústria madeireira e de pasta mecânica na região de Curitibanos.

Aos 9 anos de idade, mudou-se com a família para Caçador, Santa Catarina, onde deu continuidade aos seus estudos. Em 1950, formou-se Técnica em Contabilidade, uma conquista notável para uma mulher em sua época. Antes mesmo de concluir a formação, já trabalhava como bancária no Banco Nacional do Comércio desde 1948, demonstrando precoce inserção no mundo profissional. Em 13 de fevereiro de 1951, uniu-se em casamento a Doromeu Bossardi, comerciário natural da localidade de Criúva, município de São Francisco de Paula, Rio Grande do Sul, e filho de uma tradicional família da região, os Bozzardi/Bossardi.

No ano seguinte, em 1952, o casal tomou uma decisão que definiria o rumo de suas vidas: mudaram-se para a Vila Marombas, interior do município de Curitibanos, uma comunidade rural que começava a se desenvolver em torno das atividades madeireiras e de produção de crina vegetal. Ali, iniciaram um modesto armazém de secos e molhados, destinado a atender os moradores locais e os funcionários da empresa “Sbravatti, Bula, Granemann & Cia. Ltda.”, empresa que posteriormente mudou sua Razão Social para “Marombas & Cia. Ltda.”. Augustho foi um dos construtores da fábrica de papel e também sócio por causa do seu grande talento como engenhoso construtor. Esse pequeno comércio foi a semente de uma trajetória que uniria iniciativa privada e compromisso com o bem-estar coletivo.

Inesperadamente, em outubro daquele ano de 1952, na tarde de um domingo, ocorreu um incêndio sinistro, destruindo o prédio e instalações da fábrica, restando só a casa dos maquinários. Reunidos os sócios da firma, desfizeram a sociedade, resultou ficar as ruínas e ferros retorcidos da fábrica Marombas para um dos sócios, justamente Augustho Gröne, que com enorme capacidade, juntamente com seu genro Doromeu, ergueu novamente o empreendimento, literalmente, das cinzas e dos ferros retorcidos, elevando o empreendimento a um novo patamar.

Em 1965, com o falecimento de seu pai, Augustho Gröne, Helena deu um passo decisivo em sua vida: passou a integrar a administração da empresa Marombas, sempre ao lado do marido Doromeu e de sua irmã Helga. Foi uma verdadeira pioneira, assumindo responsabilidades empresariais de grande porte em uma época em que a presença feminina em cargos de gestão era rara e frequentemente subestimada. A perda de seu esposo em 1972 representou um duro golpe, mas também um novo desafio. Helena, então, assumiu a condução dos negócios familiares juntamente com sua irmã, demonstrando notável capacidade de liderança, visão estratégica e uma dedicação inabalável ao desenvolvimento da região.

Sua atuação, porém, transcendeu os limites da gestão empresarial. Helena Cecília Gröne Bossardi destacou-se como uma incansável defensora das melhorias na infraestrutura comunitária. Lutou permanentemente pela construção, recuperação e manutenção de pontes e estradas, compreendendo que o deslocamento de pessoas e o escoamento da produção eram essenciais para o progresso. Em todas as obras realizadas na região, a empresa Marombas, sob sua liderança, contribuiu de alguma forma, consolidando uma parceria virtuosa entre o setor privado e o interesse público.

Sua resiliência foi posta à prova durante as trágicas enchentes de 1983 e 1987, que assolaram a região. Diante da adversidade, exerceu importante papel de apoio às comunidades atingidas. Mulher de profunda fé católica e devota de Santa Catarina, em sinal de gratidão pela proteção divina nos momentos mais difíceis, instituiu a parada anual da fábrica no dia 25 de novembro, data dedicada à sua santa de devoção. Essa tradição, que perdura até os dias atuais, simboliza o entrelaçamento entre sua espiritualidade, sua liderança e o cuidado com sua comunidade.

Sua atuação social foi igualmente marcante. Helena participou ativamente de diversas entidades filantrópicas e comunitárias, incluindo o Rotary Club; a Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas — OASE, setor de trabalho e organização comunitária vinculado à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB); a Rede Feminina de Combate ao Câncer e a Associação Beneficente Frei Rogério. Por sua trajetória exemplar e suas relevantes contribuições à cidade, recebeu, em 1994, o título de Cidadã Curitibanense, entregue pelo vereador Acir Almeida Camargo, a mais alta honraria do município, concedida àqueles que prestaram serviços inestimáveis à comunidade.

Esse fato ocorreu no dia 10 de junho do ano de 1994, ocasião em que a Câmara Municipal de Vereadores de Curitibanos realizou uma Sessão Solene para outorga de títulos de Cidadãs Curitibanenses, homenageando as irmãs Helena Cecília Gröne Bossardi e Helga Wilma Gröne. A honraria, proposta por 19 vereadores, reconheceu suas trajetórias pessoais e familiares, bem como o trabalho e a dedicação em prol da comunidade. Helena e sua irmã foram destacadas como mulheres humildes, dignas e defensoras dos mais necessitados, com atuação marcante em áreas como saúde, geriatria e assistência social, sua presença e ações, segundo os vereadores, enriqueceram a vida da cidade e serviram de exemplo.

Durante a cerimônia, o vereador Sálvio Zulmar de Souza falou em nome do Legislativo, ressaltando a importância da homenagem e a alegria da Câmara em reconhecer cidadãs que fizeram a diferença. Representando o prefeito de Curitibanos, o então chefe de gabinete, senhor Ubirajara Antonio Mello, também prestou homenagens, lembrando a trajetória e o valor de cada uma.

A sessão foi conduzida pelo presidente da Câmara, vereador João Formento, e contou com a presença de autoridades, representantes de instituições como o Hospital Geriátrico Frei Rogério, sucessor do extinto Hospital Frei Rogério, além de familiares e amigos, que celebraram a vida e o legado dessas mulheres que, com sua ação, contribuíram para o desenvolvimento e o bem-estar de Curitibanos.

Helena Cecília Gröne Bossardi faleceu em 11 de novembro de 2016, aos 86 anos de idade, sendo velada na Capela Ecumênica Áurea Cardoso Mondini e sepultada no Cemitério Público Municipal São Francisco de Assis, em Curitibanos. Deixou um legado de trabalho, dedicação, fé e importantes serviços prestados ao município. Em maio de 2026, em justa e tardia homenagem, a Prefeitura Municipal de Curitibanos inaugurou a pavimentação asfáltica da via rural CTN-520, na comunidade de Marombas Bossardi, a primeira estrada rural asfaltada do município. Por meio do Projeto de Lei do Legislativo n.º 19/2026, de autoria de vários vereadores, a via foi oficialmente denominada “Estrada Municipal Helena Cecília Gröne Bossardi”, perpetuando o nome da matriarca que tanto lutou pela integração e pelo desenvolvimento das comunidades rurais. Sua memória permanece viva nos documentos familiares, nos registros paroquiais, na história empresarial da região e, agora, também na toponímia de Curitibanos.



Referências para a produção do texto:


Curitibanos — Projeto de Lei do Legislativo n.º 19/2026


CURITIBANOS inaugura primeiro asfalto rural na comunidade Marombas Bossardi. Jornal A Semana, Curitibanos, 7 maio de 2026. Disponível em: asemanacuritibanos.com.br. Acesso em: 9 jun. 2026


CURITIBANOS. Prefeitura Municipal. Inaugurada pavimentação de via que liga a SC-120 à localidade Marombas Bossardi. Texto: Nicolly Kellet. Curitibanos, 5 maio 2026. Disponível em: curitibanos.sc.gov.br. Acesso em: 9 jun. 2026 


KELLET, Nicolly. Inaugurada pavimentação de via que liga a SC-120 à localidade Marombas Bossardi. Curitibanos: Prefeitura de Curitibanos, 5 maio 2026. Disponível em: curitibanos.sc.gov.br. Acesso em: 9 jun. 2026. 


PINELLI, Antonio Celso. Câmara faz Sessão Solene para outorga de títulos. Jornal A Semana. Curitibanos, 18 de junho de 1994. Ano XI, edição n.º 568, p. 22


POPINHAKI, Antonio Carlos. Augustho Gröne. In: POPINHAKI, Antonio Carlos. Curitibanenses. Curitibanos, jul. 2013. Disponível em: blogspot.com. Acesso em: 9 jun. 2026.


POPINHAKI, Antonio Carlos. Helga Wilma Gröne. In: POPINHAKI, Antonio Carlos. Curitibanenses. Curitibanos, 19 mar. 2024. Disponível em: https://curitibanenses.blogspot.com/2024/03/helga-wilma-grone.html. Acesso em: 9 jun. 2026.

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