quinta-feira, 9 de julho de 2026

Caetano Dacol


Texto de Antonio Carlos Popinhaki

 

Caetano Dacol nasceu em 18 de setembro de 1905 na antiga localidade de Aquidabã (atual município de Apiúna), que na época pertencia a Blumenau, Santa Catarina. Ele era filho legítimo de Luiz Dacol e Luiza Deolla (também registrada como Luiza Maria Deola Dacol), ambos naturais da Itália. Seus pais, que atuavam como artistas e trabalhadores domésticos, residiam na Comarca de Indaial, onde Caetano passou os primeiros anos de sua vida. Membro de uma numerosa família de ascendência italiana, ele cresceu ao lado de dez irmãos: César, Atílio, Heitor, Luiz, Pedro, Benjamin, Ricardo, Amélia, Joana e Elízia.

Antes de migrar para o Planalto Catarinense, os Dacol estabeleceram-se no Vale do Itajaí. A chegada ao município de Curitibanos ocorreu em meio a um forte fluxo migratório entre as décadas de 1920 e 1950. Ao lado de outras famílias de origem italiana (como os Pellizzaro, Guidi, Fontana e Agostini), os Dacol exerceram um papel fundamental no desenvolvimento econômico e urbanístico da cidade, impulsionados por uma forte aptidão empreendedora.

Em 8 de dezembro de 1929, aos 24 anos, Caetano Dacol uniu-se em matrimônio com Marieta Outubrina Ganz, então com 17 anos. O casamento foi realizado na residência do Senhor Ricardo Ganz, localizada na rua Dr. Medeiros Filho, na Vila de Curitibanos, foi celebrado pelo regime de comunhão universal de bens. O termo de casamento descreve Caetano como artista, profissão que abrangia suas habilidades manuais com a carpintaria e a marcenaria, e Marieta como doméstica. Dessa união nasceram os filhos Ivoni, Francisco, Maria Ivete e Ione.

Sua trajetória profissional foi marcada pelo serviço público municipal. Documentos oficiais da Prefeitura de Curitibanos revelam que Caetano atuou como carpinteiro e, posteriormente, como chefe de carpintaria. Seu nome está na lista de funcionários da prefeitura de 12 de janeiro de 1970. Entretanto, aparece em serviços prestados bem antes desta data como ajudante na manutenção de pontilhões de madeira na década de 1960. Uma Portaria assinada pelo então prefeito municipal de Curitibanos, Hélio Anjos Ortiz, de 4 de outubro de 1972, concedeu sua exoneração do cargo de carpinteiro, entretanto, ele foi readmitido em 1.º de dezembro do mesmo ano, lotado novamente como Carpinteiro. Sua carreira na prefeitura estendeu-se até 17 de maio de 1983, quando foi exonerado do cargo de Chefe de Carpintaria. Além de suas funções, Caetano construía urnas funerárias para a população carente do município, utilizando os netos para testar os caixões infantis, o que demonstra seu engenho e sua participação na comunidade.

Nas décadas de 1960 e 1970, não existiam fábricas de caixões ou urnas funerárias para sepultamento. A maioria da população dependia de artesãos, também chamados de artistas, marceneiros e carpinteiros para confeccionar o tradicional e indispensável caixão de defunto. Caetano, funcionário da prefeitura de Curitibanos, tinha entre suas atribuições justamente a fabricação dessas urnas. 

Segundo seu antigo colega de trabalho e também carpinteiro, senhor Francisco Granemann (Chico Granemann), havia diferentes tamanhos e até alguns modelos diferenciados de urnas, tanto para adultos quanto para crianças. Ele testava a resistência das peças para que suportassem o peso do falecido, utilizando para isso adultos e crianças como referência.

Caetano guardava algumas urnas no sótão de um antigo barracão localizado em sua propriedade. Mediante ordem do prefeito, disponibilizava o artefato para que os familiares pudessem acomodar seus entes queridos falecidos.

De acordo com o senhor Francisco Granemann, Caetano Dacol provavelmente foi o primeiro carpinteiro registrado como funcionário da Prefeitura Municipal de Curitibanos. Antes e atualmente, os serviços de carpintaria eram e são contratados por empresas via processo licitatório. No período entre as décadas de 1960 e 1980, no entanto, havia quatro carpinteiros efetivos no quadro de funcionários do município.

Naquela época, o serviço para os carpinteiros era abundante. Casas de madeira construídas e reformadas pela prefeitura eram constantes, uma vez que a maioria dos imóveis de Curitibanos era feita desse material, dada a grande quantidade de serrarias existentes na região.

No final da primeira gestão do prefeito Wilmar Ortigari, foram realizadas obras de grande porte em Curitibanos, como a construção do estádio municipal e a nova sede administrativa do município. Em ambas, Caetano Dacol teve papel importante como ajudante, seguindo as determinações do mestre de obras, senhor Casemiro Baldin. Caetano auxiliou na construção das duas arquibancadas de concreto armado, que, apesar de quase seis décadas, encontram-se em perfeito estado de conservação. Na sede administrativa, ele também participou efetivamente das caixarias de concreto.

Além das tarefas atribuídas a ele pelos gestores municipais, Caetano fabricava, com sobras e retalhos de madeira, carrinhos que faziam muito sucesso entre as crianças da época. Pequenos caminhões com cabines, carrocerias e rodinhas estavam entre os brinquedos artesanais confeccionados por ele.

Interessante registrar que, ao longo do século XX, alguns descendentes de Luiz e Luíza Dacol estiveram ativamente envolvidos nas obras de construção e conservação do município de Curitibanos, com especial destaque para o apoio e a manutenção de igrejas e residências de madeira. Tudo indica que a arte de construir e preservar estava, de fato, no DNA da família.

Caetano Dacol também foi proprietário de uma extensa área de terras na zona urbana de Curitibanos, localizada nas proximidades do arroio Pessegueirinho, no Bairro Bom Jesus. A propriedade fazia divisa com a Avenida Governador Jorge Lacerda, onde atualmente se encontra o terreno da garagem do antigo Departamento de Estradas de Rodagem — DER-SC. Segundo seu neto, essa porção do terreno provavelmente foi negociada durante a gestão do prefeito Wilmar Ortigari, uma vez que Caetano era um de seus eleitores assíduos.

Na mesma propriedade, Caetano mantinha um extenso e cuidadoso parreiral, que, a cada verão, produzia uvas de excelente qualidade, comercializadas em belos cachos. Além das uvas, cultivava também ameixas, pêssegos e outras frutas típicas da região, complementando sua renda e compartilhando com a comunidade os frutos de seu trabalho na terra.

Aposentado como funcionário público municipal, Caetano Dacol faleceu em 17 de julho de 1991, aos 86 anos, em sua residência na Avenida Governador Jorge Lacerda, n.º 1044, em Curitibanos. A causa do óbito foi registrada como choque séptico, pneumopatia e AVC. Viúvo de Marieta Outubrina Ganz, deixou seus quatro filhos. Seu sepultamento ocorreu no Cemitério Público Municipal São Francisco de Assis, na mesma cidade.

A memória de Caetano Dacol permanece viva por meio de relatos familiares, como o episódio narrado por Jane Cardozo da Silveira:

 

Numa tarde de 1986, a convite de minha sogra, Ivonete Dacol, fui conhecer o tio Caetano.

Ele já era um senhor de idade cuja memória havia regressado à juventude, insistindo em manter-se lá. Ninguém conseguia convencê-lo a descansar o corpo comprido e magro. Especialmente naquele dia, ele se mostrava mais agitado do que nunca desde a manhã: andava de um lado para o outro, ansioso e indignado.

A razão da impaciência? Uma dívida a ser honrada na cidade. Exigia que o deixassem sair, pois era urgente manter o nome limpo.

Quanto mais a família garantia que não lhe restavam contas àquela altura da vida, e quanto mais tentavam convencê-lo de que tudo estava acertado na praça de Curitibanos, mais nervoso ele ficava. Nada o apaziguava. Que não viessem com enganação, ele precisava pagar!

Foi então que tive uma ideia: ofereci-me para levar o dinheiro até o credor imaginário. Tio Caetano prontamente se animou. Ele me entregou algumas cédulas enroladas pouco antes de eu sair pela porta da frente. Demorei-me um pouco dando uma volta ao redor da casa e ressurgi pela porta dos fundos com a boa notícia:

— Tudo certo, tio Caetano. Está pago.

Ele me esboçou um meio sorriso, perguntou se havia troco e, olhando através de mim, disse como quem fala para si mesmo:

— Um homem precisa ser honrado.

Dito isso, aquietou-se. Saímos dali, pisando de leve no assoalho antigo.

 

Essa passagem, somada aos registros de sua longa carreira no serviço público, compõem o retrato de um homem trabalhador, dedicado à família e guiado por princípios morais e sólidos.

 

Referências para o texto:

 

Fotografia: acervo do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza de Curitibanos 

Informações de Francisco Granemann

Informações de Alexandre Dacol

Informações do Registro de Óbito do Cartório de Registro Civil do município de Curitibanos.

Registro de Óbito: Portal familysearch. On-line, disponível em: https://www.familysearch.org/pt/brasil/  

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